Há um movimento silencioso, mas implacável, reconfigurando o topo da pirâmide corporativa. Durante décadas, líderes, executivos e grandes marcas se apoiaram no que costumo chamar de “reputação de vitrine”: um posicionamento moldado por assessorias tradicionais, discursos milimetricamente polidos e uma blindagem artificial que escondia qualquer traço de vulnerabilidade.
Era fácil sustentar essa vitrine quando o juiz da sua credibilidade era apenas a primeira página de uma busca estática no Google ou um feed rolado às pressas. Mas o jogo mudou. Entramos na era em que a sua verdade está sendo auditada em tempo real, e o auditor não tem sentimentos. Ele é frio e calculista.
Quando um investidor, um conselho de administração ou um cliente de alto valor quer saber quem você realmente é, ele não pesquisa mais esperando ler o seu release oficial corporativo. Ele pergunta ao ChatGPT, ao Perplexity, ao Gemini. E é aqui que a “reputação de vitrine” desmorona. As máquinas não leem apenas a sua biografia oficial; elas cruzam pegadas digitais, analisam o contexto e procuram por uma coisa que o verniz não tem: densidade.
Quando migrei definitivamente da bancada dos telejornais para o universo digital, em 2021, me deparei exatamente com esse abismo. O mercado estava obcecado por volume de postagens, mas completamente esvaziado de essência. “Eu mesma precisei desconstruir o meu próprio verniz de âncora de TV para entender que a perfeição afasta, enquanto a vulnerabilidade e a verdade conectam”, é o que costumo dizer aos profissionais que sentam à minha frente hoje. Como eu passei por esse processo na pele e sei exatamente como funciona esse mecanismo, tive que reprogramar a minha própria mente e me abrir com humildade para as novas metodologias também.
Foi dessa inquietação genuína que comecei a construir com meus clientes o que chamo de Comunicação Estratégica Positiva. E preste muita atenção: não estou falando daquele otimismo tóxico das redes sociais ou de frases feitas para gerar curtidas fáceis. A comunicação positiva, na sua raiz mais estratégica, é a coragem de assumir suas cicatrizes de execução. É transformar a sua vivência real, incluindo as quedas, os medos e os turnarounds, em um ativo de liderança inquestionável. É posicionar a sua voz com propósito e consciência.
Sou uma grande fã e acompanho de perto as reflexões de Walter Longo, um dos maiores especialistas em inovação do nosso país. Em suas abordagens, ele traz uma premissa que valida exatamente esse caminho: a Inteligência Artificial não chegou para roubar o nosso lugar, mas para nos obrigar a resgatar a nossa humanidade. Se a máquina já é capaz de escrever textos impecáveis, organizar dados lógicos e criar roteiros corporativos em segundos, o que sobra para o líder?
Sobra a intuição moldada por negócios que deram errado. Sobra a resiliência humana. Sobra a empatia que nenhuma IA consegue simular. Como o próprio mercado de inovação já percebeu: em terra de robô, quem tem coração é rei.
É por isso que, hoje, quando aplicamos a Engenharia de Autoridade para reposicionar um líder para essas novas buscas generativas (GEO), o primeiro passo é quebrar o personagem do “CEO perfeito”. As IAs buscam o chamado E-E-A-T (Experiência, Especialidade, Autoridade e Confiabilidade). Elas só recomendam como autoridade aquele profissional que tem uma história auditável e uma comunicação verdadeira. E olha que nem é preciso abrir a boca: o seu rastro digital já fala por você antes mesmo de você entrar na sala de reunião.
A provocação que deixo para você, líder que me lê agora, é simples, mas profunda: se amanhã um grande fundo de investimentos pedir a uma inteligência artificial para traçar o seu perfil de liderança, o que ela vai encontrar? Um executivo de vitrine ou uma autoridade humana impossível de ser ignorada?
A tecnologia acelerou tudo. Mas, curiosamente, a sua verdade humana nunca foi tão exigida.
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