Há um detalhe interessante acontecendo no mercado de acessórios brasileiro: quanto mais opções aparecem, menos sentido faz pensar na joia, na semijoia ou na bijuteria apenas como um complemento da roupa. O acessório está ganhando outra função… Ele comunica personalidade. Cria pertencimento. Atualiza uma produção. Resgata uma memória. Representa uma crença. E, cada vez mais, acompanha a vida real, inclusive os lugares onde, até pouco tempo atrás, ninguém imaginava que uma joia fosse parar.
De acordo com a Mordor Intelligence, o mercado brasileiro de joias tem nas bijuterias um dos segmentos com maior potencial de expansão, com crescimento projetado de 7,52% ao ano até 2031. A consultoria relaciona esse movimento, entre outros fatores, ao uso dos acessórios como elemento de expressão pessoal. Mas talvez a parte mais interessante não esteja no crescimento em si. Está em por que as pessoas estão comprando. E foi justamente isso que ficou evidente na 109ª edição da BIJOIAS, realizada em São Paulo sob o conceito “Odisseia” .
A edição reuniu marcas, designers e compradores para apresentar as principais direções da temporada Primavera-Verão 2026/2027.

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Quando o acessório vai para TODOS os lugares
Uma joia dentro de um aquário. A imagem, à primeira vista, parece quase improvável. Mas traduz uma mudança importante no mercado de acessórios: a peça que antes precisava ser protegida da vida agora quer fazer parte dela. Foi exatamente esse movimento que encontrei na conversa com Patricia Toledo, da LBF, durante a BIJOIAS.
Segundo Patrícia, a aposta da marca na nova coleção, Steelship, desenvolvida em inox, nasceu de uma dor bastante concreta do mercado: com o ouro cada vez mais caro, olojista encontra mais dificuldade para manter a mesma margem e, ao mesmo tempo, oferecer ao consumidor uma peça que faça sentido para o uso cotidiano. A resposta foi buscar inovação no material. De acordo com a Mordor Intelligence, o aumento dos preços dos metais preciosos está entre os fatores que pressionam o mercado brasileiro de joias, enquanto materiais alternativos e combinações de diferentes materiais aparecem como possibilidades de expansão.
De acordo com a Mordor Intelligence, o aumento dos preços dos metais preciosos está entre os fatores que pressionam o mercado brasileiro de joias, enquanto materiais alternativos e combinações entre diferentes matérias-primas aparecem como possibilidades de expansão. O aço inox chega como uma proposta de maior resistência, pensada para acompanhar uma rotina em que o acessório não precisa mais ficar restrito a determinadas ocasiões. Segundo a LBF, a proposta combina resistência ao suor e à água com uma característica importante para o consumidor: a possibilidade de usar a peça por mais tempo e em mais situações.
E isso diz muito sobre como a relação com os acessórios está mudando. A consumidora vai para a academia usando a peça, sai do trabalho com ela e segue para o happy hour. O acessório passa a acompanhar a rotina da pessoa, e não o contrário. Existe uma mudança de comportamento aí. Durante muito tempo, escolher uma joia também significava pensar em quando seria possível usá-la. Agora, a pergunta parece ser outra: por que eu precisaria tirá-la? É uma diferença sutil, mas estratégica.
Porque quando a peça entra na rotina, atributos como resistência e praticidade deixam de ser apenas características técnicas e passam a fazer parte do desejo. Na BIJOIAS, ainda eram poucos os expositores apostando nessa direção, mas a presença da LBF chama atenção justamente por antecipar uma necessidade que parece cada vez mais evidente: a busca por acessórios capazes de atravessar diferentes momentos da vida. Quando o acessório passa a acompanhar todos os lugares, ele também começa a carregar todas as experiências.
E se a joia pode ir para a academia, para o trabalho, para o happy hour e para a praia, ela também pode levar consigo um pouco daquilo que queremos sentir nesses lugares. É justamente nesse ponto que entra uma das grandes apostas para o Verão 2027: o escapismo.

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O consumidor quer sair da realidade
Uma das grandes tendências apresentadas para a temporada é o escapismo. A ideia aparece na própria leitura feita pelos expositores: sair, ainda que simbolicamente, da realidade cotidiana e transformar aquilo que desperta desejo, memória e imaginação em acessórios. Flores, folhas, insetos, natureza, referências lúdicas, elementos do mar, cores suaves e formas orgânicas começam a funcionar como pequenas narrativas. O acessório deixa de ser apenas objeto e passa a carregar uma atmosfera. Na coleção Pétala, da Divina Luz, essa lógica se manifesta de maneira particularmente interessante.
Segundo Luciana Jurdin, uma das proprietárias da marca, em conversa durante a feira, a coleção foi dividida em diferentes capítulos, explorando elementos como pérolas, fitas, natureza, insetos e o conceito de néctar. A pérola, por exemplo, continua existindo, mas não precisa mais aparecer daquela maneira tradicional que todos reconhecem. Ela cresce, ganha volume e entra no maximalismo, mas, ao mesmo tempo, pode continuar delicada. Parece contraditório. E é justamente nessa combinação de extremos que está a tendência.
Na leitura apresentada pela Divina Luz durante a BIJOIAS, a pérola ganha proporções maiores e entra em uma estética maximalista sem abandonar a elegância. A fita também aparece como alternativa à corrente tradicional, trazendo movimento e leveza.

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O Maximalismo não é mais o oposto da delicadeza
Durante muito tempo, pensamos em delicadeza e impacto como extremos. Ou a peça é pequena, discreta e sofisticada, ou é grande, chamativa e maximalista. O que aparece agora é mais interessante: os dois podem coexistir. Na leitura apresentada pela Divina Luz durante a BIJOIAS, a pérola ganha proporções maiores e entra em uma estética maximalista sem abandonar a elegância. A fita também aparece como alternativa à corrente tradicional, trazendo movimento e leveza. O resultado é uma estética menos preocupada em escolher entre “menos” ou “mais” , ela quer os dois.
É nesse contexto que o acessório ganha protagonismo na construção da imagem pessoal: a roupa pode ser relativamente básica, mas uma corrente diferente, uma composição de pérolas, uma peça colorida, um detalhe religioso ou uma textura inesperada são capazes de transformar completamente o visual. São pequenas escolhas que revelam estilos, criam contrastes e ajudam a construir uma identidade própria. E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes forças da bijuteria: ela democratiza a experimentação e permite brincar com a própria imagem sem precisar transformar o guarda-roupa inteiro.
Durante a BIJOIAS, o moissanite também apareceu entre as apostas observadas na feira, em uma temporada marcada por brilho, volumes, cores, referências naturais e estética vintage. O movimento revela um mercado que se torna mais sofisticado justamente por se tornar mais diverso. Não existe mais uma única rota para transmitir valor. O desejo pode passar pelo ouro, mas também pelo design, pela tecnologia, pelos materiais e pela maneira como cada elemento é interpretado.

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O acessório também está reescrevendo os Códigos da Fé
Outro movimento que merece atenção é a presença renovada dos símbolos religiosos. Nossa Senhora, crucifixos, escapulários e outros elementos de fé aparecem associados à moda, criando uma combinação potente entre identidade, significado e estética. O consumidor não precisa escolher entre expressar aquilo em que acredita e aquilo que considera bonito. A mesma peça pode cumprir as duas funções. Essa é uma das forças desses símbolos: eles carregam significado antes mesmo de se tornarem tendência.
Quando a moda os ressignifica, cria uma ponte entre tradição e contemporaneidade, movimento semelhante ao que acontece com o vintage, as pérolas e os elementos naturais. O mercado, portanto, não está necessariamente inventando novos símbolos. Está dando novos contextos aos antigos.

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A cravação também conta uma história
Outro exemplo aparece na nova coleção da IT Joias, que aposta na cravação inglesa e em correntes com esferas. Segundo Taís Filizzola, da IT Joias, entrevistada durante a feira, a coleção Primavera-Verão foi desenvolvida a partir de referências de grandes joalherias internacionais, incorporando elementos como as esferas e a cravação inglesa. A referência pode ser internacional, mas a leitura é local. E existe algo estratégico nessa escolha: uma corrente deixa de ser apenas mais uma corrente, assim como uma cravação deixa de ser apenas uma técnica. O design passa a funcionar como assinatura.
Em um mercado cada vez mais concorrido, competir apenas por produto se torna mais difícil. A diferenciação não está necessariamente em criar algo que ninguém mais possui, mas em desenvolver uma maneira própria de interpretar aquilo que todos estão vendo.
A marca que vende precisa aparecer
Talvez essa seja uma das mudanças mais significativas no varejo de acessórios: a dona da marca também passou a fazer parte do produto.Ainda de acordo com Taís, da IT Joias, a lojista defendeu que a presença das empreendedoras nas redes sociais se tornou praticamente indispensável, justamente porque as pessoas se conectam com pessoas. Isso vai além de produzir conteúdo. É colocar personalidade na comunicação, mostrar bastidores, dificuldades, processos e, principalmente, quem existe por trás da marca.
A lógica é simples: quando o consumidor encontra milhares de produtos semelhantes, começa a procurar algo que o objeto, sozinho, não consegue entregar: história. É por isso que a autenticidade se tornou um ativo comercial. Não porque “ser autêntico” seja uma fórmula mágica de vendas, mas porque a diferenciação está migrando do objeto para o conjunto da experiência. A peça importa. A imagem importa. Quem apresenta importa. A narrativa importa. O ponto de venda importa. E o encontro presencial continua tendo valor.
A BIJOIAS, funciona como um ambiente de negócios B2B voltado à aproximação entre marcas e compradores, permitindo contato direto com produtos, tendências e fornecedores.

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A vitrine deixa de ser decoração e vira venda
Na avaliação da marca, a construção de uma coleção e sua apresentação visual precisam ajudar o lojista a imaginar como determinada tendência pode chegar ao consumidor final. Isso transforma a função do expositor. Ele não entrega apenas produto, mas também uma possibilidade de merchandising: uma história, uma atmosfera e, sobretudo, uma sugestão de venda. É uma mudança importante no B2B. O fornecedor que ajuda o lojista a vender passa a ter mais valor do que aquele que simplesmente entrega mercadoria.
Nesse sentido, a BIJOIAS deixa de ser apenas um lugar para comprar e passa a ser também um lugar para aprender a vender aquilo que foi comprado.

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No fim, o que a 109ª BIJOIAS revela não é apenas uma lista de peças que estarão na moda. É algo mais profundo. O consumidor quer liberdade para usar, personalidade para se expressar, significado para escolher, durabilidade para incorporar, novidade para experimentar e conexão para decidir de quem comprar.Por isso, escapismo, natureza, pérolas maximalistas, fitas, símbolos religiosos, novas cravações, aço, moissanite e acessórios que transitam da academia à praia podem parecer tendências desconectadas, mas não são.
Todas respondem à mesma transformação: o acessório está acompanhando uma vida que se tornou mais híbrida. A roupa de trabalho encontra o look de fim de semana. A academia encontra o lifestyle. A fé encontra a moda. A tradição encontra o maximalismo. O digital encontra o presencial. E a joia acompanha tudo isso. Talvez essa seja a grande virada do mercado: não estamos mais escolhendo acessórios apenas para combinar com aquilo que vestimos. Estamos escolhendo peças para expressar quem somos em diferentes versões de nós mesmos. Quando isso acontece, o acessório deixa de ser complemento, vira linguagem.
E a próxima pergunta já não é qual tendência vai dominar a temporada, mas até onde o acessório será capaz de acompanhar a vida que o consumidor quer viver.

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