O Mapa das Tendências

Um olhar analítico sobre as novas ondas do mercado de marketing e influência

Por Ana Lima
Publicitária e estrategista em comunicação e marketing de influência.


Será que é mesmo tendência não namorar?

Nas últimas semanas, um artigo da Vogue americana ganhou atenção ao afirmar que “ter namorado” estaria ficando constrangedor entre mulheres jovens, especialmente entre criadoras de conteúdo. A autora sugere que postar o parceiro nas redes sociais diminui o brilho da mulher, afasta seguidores e ainda a coloca em uma posição menos interessante para o público. Em alguns momentos, o texto escorrega para algo mais sério, como se solteirice e relacionamento fossem sinais de mentalidades distintas, quase opostas.

Antes de tudo, é importante reconhecer que esse tipo de leitura é profundamente limitado. O artigo parte de um recorte muito específico da cultura americana e tenta transformar um comportamento de nicho em uma tendência global. Não é. No Brasil, as pessoas continuam gostando de namorar, casar, mostrar a vida, celebrar momentos. Isso faz parte da nossa cultura afetiva e não desaparece porque uma revista gringa decidiu interpretar vida amorosa como estética de internet, mesmo tendo muitas pessoas querendo importar a pauta para cá.

O erro do texto não foi registrar que existe certo cansaço com conteúdos de casal centrados apenas no parceiro, porque isso é real, as pessoas estão cansadas disso mesmo, mas o problema é transformar status amoroso em régua de julgamento da mulher. A mensagem implícita um tanto quanto polêmica: mulheres solteiras seriam mais livres, modernas e desejáveis, enquanto as mulheres em relacionamento perderiam força ou autenticidade.

Falo também a partir da minha própria vida. Sou casada há 27 anos, vinte e oito agora em dezembro. Estudei comportamento, comunicação e marketing durante toda a minha trajetória. Nunca precisei esconder meu casamento para preservar minha credibilidade. E o fato de eu ser casada nunca teve absolutamente nenhuma relação com meu caráter, minha autonomia ou minha capacidade profissional. Dizer que mulher que namora “perde relevância” é só mais um estereótipo, travestido de tendência.

FOTO: Agência Alma

Do ponto de vista do marketing de influência, a tese da Vogue também não se sustenta. Sim, algumas criadoras perdem seguidores quando assumem um relacionamento. Isso acontece por motivos muito simples: parte da audiência projeta fantasia e se frustra ao descobrir que a pessoa está namorando. Mas isso não transforma namoro em tabu, nem converte solteirice em regra de engajamento. É apenas ajuste de público. Quem fica é quem gosta do conteúdo, não da ilusão parassocial que as redes, de certa forma, trazem.

E quando olhamos para a prática, os exemplos falam mais alto do que qualquer teoria que circula na internet. Na agência, trabalhamos com casais que performam extremamente bem, como o Turistando SP e o Estrangeiros SP. Eles crescem, entregam valor e têm público fiel. Por quê? Porque o centro do conteúdo não é a relação deles. O conteúdo fala das experiências, das soluções, das descobertas. O fato de serem casal aparece como parte da vida, não como produto.

O público não rejeita casais. O público rejeita conteúdo fraco, repetitivo e ensaiado. O problema não é ter namorado, mas transformar o namoro em identidade principal, sem nada além disso para oferecer. Da mesma forma, esconder o relacionamento apenas para parecer atual ou “mais interessante” também não é sinônimo de liberdade. Passa bem longe disso, é só mais um tipo de pressão social para as mulheres enfrentarem.

FOTO: Agência Alma

Há, sim, um lado positivo nesse debate todo. Ser solteira deixou de ser sinônimo de fracasso. Mulheres solteiras hoje não precisam se justificar. Elas podem focar em trabalho, viagens, amizades, projetos, autocuidado, sem tanto julgamento como alguns anos atrás. É um grande avanço para nós, mas esse avanço não exige demonizar o namoro. Solteiras e comprometidas continuam igualmente livres.

O ponto que esse discurso importado ignora é simples: mulheres brasileiras são independentes com ou sem relacionamento. Autonomia não nasce do estado civil. Nasce da capacidade de decidir a própria vida. Casadas, solteiras, namorando ou separadas, todas podem ser criadoras grandes, profissionais excelentes e pessoas autênticas.

Mostrar ou não mostrar o parceiro é só uma escolha de comunicação. Tem criadora que compartilha muito, tem criadora que não mostra quase nada. As duas escolhas são válidas. O que importa, no marketing de influência, é clareza de propósito. Se o conteúdo central não é vida pessoal, o parceiro aparece o suficiente para não virar protagonista. Se o projeto é familiar, a presença é natural e inevitável. Coerência importa mais do que qualquer tendência.

Mesmo quando a revista tenta transformar vida afetiva em tendência de moda, ignorando cultura digital, contexto e o próprio estágio de maturidade do mercado de influência, o resultado é um texto que movimenta debate, mas não esclarece de fato esse fenômeno. Para quem trabalha com criação para as redes sociais, a lógica é bem simples: relevância não depende de exibir ou ocultar relacionamento. Ela vem da solidez do conteúdo, da forma como se entrega a mensagem e da capacidade de criar vínculo real com o público. O restante é ruído que não conversa com a prática.

__________
FOTOS: Agência Alma