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Entre chocolates, vinhos e fondue: roteiro para um fim de semana perfeito em Gramado

Existe um tipo de viagem que não se mede em quilômetros percorridos. Mede-se em camadas: de lã merino sobre os ombros, de vapor subindo da xícara de chocolate quente, de silêncio que só as altitudes sabem oferecer. Gramado, a 868 metros acima do nível do mar e a pouco mais de uma hora de Porto Alegre, é esse tipo de lugar.

Por aqui, a herança europeia é equilibrada com uma brasilidade que nunca se apaga. O resultado é uma cidade editada com cuidado: flores por todos os lados, calçadas perfeitas, fachadas de enxaimel que resistem ao tempo. Há um pacto tácito com quem visita: ela oferece beleza e ordem; o visitante, em troca, se permite desacelerar. Quem aceita os termos sai transformado. 

O simples necessário 

O ponto de partida é o Hotel Wood. Além da decoração aconchegante, o serviço impecável, o café da manhã que se estende com a generosidade de quem tem tempo, o Wood se revela primeiro no sono. Há hotéis que permitem descansar. O Wood pertence à outra categoria: aquela dos lugares que ensinam o corpo a dormir de um modo que ele havia esquecido. 

FOTO: Divulgação

Para cada hóspede existe um protocolo do sono, com um menu de diferentes travesseiros à escolha, preparação feita com cuidado em cada noite, chá de camomila, música relaxante, tudo pensado e executado para o descanso. De manhã, o café é desenvolvido com ingredientes locais, um enxuto e prático buffet, ao lado de um menu de ovos e um carrinho de premiados queijos artesanais passeando pelo salão. Simples assim. Tudo com a assinatura da Chef Roberta Sudbrack. 

À mesa: Gramado apresenta seu argumento mais forte 

No Catherine, o fondue assume o papel central da experiência. Servido à mesa na temperatura precisa, preserva textura e sabor do primeiro ao último mergulho. O ritual, completíssimo, com carnes, queijos, doces e acompanhamentos, além de harmonização com vinhos locais, cria uma cadência própria, quase hipnótica, no preparo de cada pedaço cuidadosamente selecionado, que transforma a refeição em uma verdadeira cerimônia gastronômica. 

Tem lugares em que comer é, antes de tudo, um pretexto para estar junto. O Ocre, dentro do Wood Hotel e com assinatura de Roberta Sudbrack, entende isso bem. O cardápio muda conforme a estação e chega à mesa para compartilhar: embutidos fatiados na hora e queijos brasileiros abrem caminho para um frango caipira de pele crocante e carne úmida e um steak au poivre que equilibra a força da pimenta com o ponto perfeito da carne. A refeição por aqui é sem pressa como política da casa, a mesa é lugar de conversa, experimentação e, claro, muita comida boa.

FOTO: Divulgação/ Sérgio Azevedo

A Osteria di Lucca traz a alma italiana para a Serra Gaúcha. O ambiente tem o charme toscano e a cozinha segue o mesmo espírito: massas feitas à mão, com a textura que só a farinha trabalhada no dia consegue entregar. O cordeiro chega ao prato com a suavidade de quem passou horas no fogo baixo, enquanto o ragù de cogumelos concentra camadas de sabor profundo. Para fechar, um tiramisù com mascarpone cremoso e café intenso, clássico sem ser previsível. A carta de vinhos passeia por rótulos italianos e nacionais com critério, prontos para amarrar cada prato com precisão.

O encerramento perfeito vem no Soleil Casa Perini, espaço que entrega cozinha italiana com personalidade. O menu não tenta reinventar a Itália, mas a interpreta com liberdade. As massas são feitas diariamente, e chegam à mesa com a textura que só o preparo artesanal garante. O Filetto Del Sole, filé mignon finalizado com fonduta de queijos e Gran Formaggio gratinado, é o prato que melhor resume a proposta da casa: técnica a serviço do sabor. No fim, o Tiramisù di Verona cumpre seu papel com precisão, mascarpone firme, café presente, cacau sem exagero, enquanto o Pudim di Dolce di Latte, entrega doçura e leveza para os amantes das sobremesas. 

FOTO: Divulgação

Vinícolas: aula conduzida com calma 

Há lugares que seduzem pelo barulho, e há lugares que seduzem pelo silêncio. As vinícolas nas proximidades de Gramado pertencem, sem dúvida, à segunda categoria. 

Na Ravanello, o percurso começa pelos vinhedos e termina na degustação, mas não do jeito que você possa imaginar: é o próprio enólogo que puxa conversa, conta causo, abre garrafa. O brut rosé é o que fica na memória. E, muitas vezes, acompanha a volta na mala. 

Na Seganfredo, alguém que entende tanto de paisagem quanto de vinho deve ter calculado cada ângulo da vista para os vinhedos. Não parece acidente. O moscatel demi-sec, por sua vez, tem o costume de surpreender. 

FOTO: Divulgação

Para passear e levar 

Com o vale da Serra Gaúcha aparecendo no horizonte, o Olivas de Gramado é o tipo de destino que dissolve qualquer pressa. A estrada até o cânion já anuncia o tom e o que se encontra no topo é uma experiência que une natureza, produção artesanal e gastronomia. Com degustações, restaurante, trilhas, fazendinha e música ao vivo, o espaço pode parecer, em aparência, uma loja de azeites. Na prática, é um laboratório sensorial. A saída costuma vir com a mala mais pesada, e sem nenhum remorso. 

A Prawer, pioneira do chocolate artesanal brasileiro desde 1975, eleva a experiência sensorial a um ritual quase litúrgico. O perfume já avisa o que vem pela frente: um tour guiado de 40 minutos que combina produção artesanal e degustação de cinco tipos de chocolates. 

Já a Miroh, fundada pelo chocolateiro Ricardo Campos às margens do Lago Negro, é a primeira bean-to-bar de Gramado. A marca trabalha exclusivamente com fazendas sustentáveis de cacau orgânico, importando amêndoas certificadas de cinco países: Índia, Filipinas, Madagascar, Nicarágua e Venezuela, além de fornecedores brasileiros da Bahia e do Espírito Santo. 

FOTO: Divulgação

A Cristais de Gramado merece tempo. Em um tour guiado, o visitante é conduzido pela história do cristal e pelo ateliê aberto onde mestres vidreiros trabalham ao vivo, antes de encerrar com A Voz do Cristal, tocado ao vivo em taças. Para quem quiser ir além da contemplação, é possível vestir os equipamentos e criar o próprio vaso ao lado dos artesãos, levando para casa a peça e o certificado de artesão por um dia. 

Já a partida é sempre um pouco mais difícil do que deveria ser. A mala vai remontada, cheia de chocolates, azeites e vinhos enrolados entre roupas, e aquela sensação de quem viveu muito bem por dias seguidos: o corpo lembra, mesmo quando a mente já voltou para a rotina. 

FOTO: Divulgação

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POR Viviane Auerbach
FOTO DESTAQUE: Divulgação
FOTOS: Divulgação e Divulgação/ Sérgio Azevedo

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