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Em Milão, o Hotel Principe di Savoia segue como símbolo do luxo clássico italiano

No número 10 da Piazza della Repubblica, em Milão, ergue-se um edifício cuja presença parece pertencer a duas épocas ao mesmo tempo. O Hotel Principe di Savoia, inaugurado em 1927, é um daqueles raros hotéis que parecem ter sido concebidos não apenas para hospedar viajantes, mas para testemunhar – e discretamente participar – da história de uma cidade. Do lado de fora, a praça pulsa com a energia de uma metrópole que nunca deixou de se reinventar. Arranha-céus contemporâneos surgem ao longe, na direção de Porta Nuova, símbolo do novo horizonte milanês. Mas, ao atravessar as portas do hotel, o visitante entra em um mundo onde o tempo parece bater em outro ritmo: lustres de cristal, mármore polido, tapeçarias discretas e uma sucessão de salões que evocam a elegância teatral da Itália do final do século XIX. O hotel faz parte da Dorchester Collection, grupo que reúne algumas das propriedades mais emblemáticas do mundo. Ainda assim, o Principe conserva uma identidade profundamente milanesa – uma mistura de formalidade aristocrática e pragmatismo urbano que reflete o caráter da cidade. 

Um hotel para a cidade dos negócios 

Quando abriu suas portas, em 6 de abril de 1927, Milão já consolidava sua reputação como o centro econômico da Itália. A escolha do local, então conhecido como Piazza Fiume, parecia excêntrica para alguns contemporâneos: ficava ao norte do coração histórico da cidade, longe da área entre a Piazza del Duomo e o Teatro alla Scala, tradicional epicentro social milanês. Mas havia uma lógica empresarial na decisão. A poucos minutos ficava a Stazione Centrale di Milano, uma das grandes portas de entrada da Itália. Para a nova geração de industriais e banqueiros que chegavam à cidade, o hotel oferecia algo inédito: luxo com eficiência. O projeto foi confiado ao arquiteto milanês Cesare Tenca, que concebeu um edifício elegante cercado por árvores, afastado do ruído imediato do centro. Desde o início, o hotel se posicionou como um refúgio sofisticado para homens de negócios, fato que se refletiu até na publicidade da inauguração. O único anúncio de página inteira foi publicado no jornal financeiro Il Sole, destacando preços dos quartos e um detalhe tecnológico então revolucionário: telefones com discagem direta em todos os quartos. 

FOTO: Divulgação/ Orchester Collection

Quando a elite cultural chegou 

O sucesso inicial superou expectativas. Empresários e magnatas foram os primeiros hóspedes, mas não demorou para que o hotel atraísse outro tipo de visitante – figuras da cultura, da política e da aristocracia europeia.Entre os nomes registrados ao longo das décadas estão o escritor alemão Erich Maria Remarque, o cineasta Charlie Chaplin, a cantora Josephine Baker, a diva da ópera Maria Callas e a atriz Elizabeth Taylor. Há também histórias quase lendárias. Conta-se que o poeta e provocador cultural Gabriele D’Annunzio passou pelo hotel nos seus primeiros anos, assim como o Duque de Windsor e figuras da elite internacional como Aristóteles Onassis. O resultado foi um curioso fenômeno social: o bar do hotel tornou-se um espaço onde aristocratas, industriais e artistas compartilhavam o mesmo aperitivo. 

Reconstrução e reinvenção 

Como grande parte da Europa, Milão foi profundamente transformada pela Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, o hotel chegou a servir como quartel-general militar – primeiro para tropas alemãs, depois para forças americanas. Após a guerra, a cidade mudou radicalmente. Indústrias migraram para os subúrbios, novas avenidas foram abertas e a paisagem urbana se expandiu para além do centro histórico. 

FOTO: Divulgação/ Orchester Collection

O Principe também evoluiu. Entre 1956 e 1957 foram inauguradas duas novas alas, ampliando o hotel. Décadas depois, nos anos 1980, o nome foi simplificado para Principe di Savoia – referência direta à antiga família real italiana. A mudança mais significativa, porém, veio em 2003, quando o hotel passou a integrar a Dorchester Collection, controlada pela Brunei Investment Agency. O grupo iniciou um programa de renovação que atualizou quartos, espaços de eventos e áreas de bem-estar sem alterar a estética clássica do edifício. 

O teatro cotidiano do luxo 

Hoje, o hotel abriga 301 acomodações – 257 quartos e 44 suítes –, cada uma decorada em uma interpretação contemporânea do estilo Liberty italiano. Algumas das suítes mais notáveis incluem as Principe Suites, com afrescos pintados à mão e banheiros em mármore de Lasa, e as Imperial Suites, com cerca de 230 metros quadrados, equipadas com banho turco e sistemas de cromoterapia. No topo da hierarquia está a suíte presidencial, frequentemente ocupada por chefes de Estado, celebridades e membros da realeza. A vida social do hotel gira em torno de três espaços principais. O restaurante Acanto, comandado pelo chef Matteo Gabrielli, oferece interpretações modernas da culinária italiana clássica. O Il Salotto funciona como uma espécie de sala de estar pública, onde executivos, turistas e socialites se encontram para café ou chá da tarde sob um lustre de vidro de Murano criado pela histórica casa Barovier & Toso. Mais à noite, o Principe Bar assume o protagonismo. Um piano de cauda ocupa o centro do salão e um DJ residente conduz a trilha sonora enquanto coquetéis circulam entre mesas de mármore e espelhos retroiluminados. 

FOTO: Divulgação/ Orchester Collection

Um palco milanês 

No último andar, o Club 10 Fitness & Beauty Center oferece uma visão panorâmica da cidade – um lembrete de que Milão continua mudando ao redor do hotel. Piscina aquecida, spa, academia e um terraço na cobertura criam um ambiente que mistura bem-estar contemporâneo com a estética tradicional do edifício. Talvez seja essa combinação – tradição e adaptação – que explica a longevidade do hotel. Em uma cidade que é simultaneamente capital da moda, do design e das finanças italianas, o Principe di Savoia funciona como uma espécie de palco silencioso. Ali, executivos fecham contratos, celebridades entram discretamente pelos corredores e viajantes observam o movimento da praça. E, enquanto Milão continua a reinventar seu horizonte, o hotel permanece – como sempre esteve – no ponto exato onde negócios, cultura e elegância se encontram. 

FOTO: Divulgação/ Orchester Collection

_________

POR Viviane Auerbach
FOTOS: Divulgação/ Orchester Collection 

 

 

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