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Chef Saulo Jennings transforma os sabores do Tapajós em identidade gastronômica

O chef Saulo Jennings se tornou um dos principais nomes da gastronomia amazônica ao transformar os sabores e saberes do Tapajós em uma cozinha de identidade própria. À frente da Casa do Saulo, projeto que nasceu em Santarém e se expandiu para diferentes cidades brasileiras, o chef paraense ajudou a colocar a região no mapa gastronômico do país e levou seus ingredientes a importantes palcos nacionais e internacionais.

Nomeado Embaixador Gastronômico da ONU Turismo, Jennings construiu uma carreira que vai além dos restaurantes: sua cozinha também se tornou instrumento de valorização cultural, sustentabilidade e geração de renda para comunidades ribeirinhas. Mas, antes dos prêmios, dos restaurantes e dos eventos internacionais, existe a história de um menino que cresceu às margens do Rio Tapajós.

Nascido em Santarém, ele teve na família e no próprio território suas primeiras referências gastronômicas. O pai, que gostava de cozinhar, reunia pessoas ao redor da mesa, enquanto o peixe que chegava pelo rio, a farinha e os ingredientes da região faziam parte do cotidiano. A relação entre comida, afeto e partilha, construída ainda na infância, acabaria se tornando uma das bases de sua trajetória.

O caminho até a cozinha profissional, porém, não foi planejado. Jennings começou a carreira no mundo corporativo, trabalhando com gestão de pessoas, marketing, vendas e em empresas multinacionais. Depois, deixou o ambiente empresarial e passou a dar aulas de kitesurf às margens do Tapajós. Foi nesse período que a gastronomia começou a ganhar espaço em sua vida. Depois das aulas, ele preparava refeições para os alunos e amigos, e percebeu que a comida despertava cada vez mais interesse. 

A demanda cresceu até que, em 2009, o que era um hábito despretensioso se transformou na Casa do Saulo. O restaurante começou de maneira simples, na própria casa do chef, e ganhou força pelo boca a boca. Com o tempo, Jennings passou a se dedicar cada vez mais ao estudo da gastronomia e chegou a estudar na Escola Laurent Suaudeau, em São Paulo. Paralelamente, aprofundou suas pesquisas sobre os ingredientes, as técnicas e a origem dos produtos que chegavam à sua cozinha. 

Foi assim que nasceu também o conceito de cozinha tapajônica, termo criado por Jennings para destacar a identidade gastronômica específica da região. Em vez de tratar a Amazônia como um território culinário homogêneo, o chef procura evidenciar as particularidades do Tapajós, seus ingredientes, técnicas e modos de fazer.

FOTO: Divulgação/ Victor Alvarenga

Uma cozinha que carrega uma história

Para Jennings, falar de cozinha tapajônica é falar também de território. Pirarucu, tucupi, jambu, feijão-manteiguinha e outros ingredientes amazônicos aparecem em seus pratos não apenas como elementos gastronômicos, mas como parte de uma narrativa sobre a região e suas comunidades.

Essa visão ajudou a transformar a Casa do Saulo em mais do que um restaurante. Em Santarém, a casa se consolidou como destino gastronômico e passou a integrar a experiência de quem visita a região. A expansão para Belém, Rio de Janeiro e São Paulo levou essa proposta para públicos diferentes, mantendo como eixo a valorização dos sabores do Tapajós. 

Casa do Saulo em São Paulo | Foto: Divulgação/Wilton Lima

Em São Paulo, Jennings encontrou uma cidade especialmente aberta para essa troca. Acostumado a receber cozinhas de diferentes partes do mundo, o público paulistano passou a ter contato com uma gastronomia brasileira que ainda busca conquistar mais espaço fora da região Norte. Para o chef, essa presença na capital paulista tem justamente esse papel: apresentar a Amazônia como uma cultura viva, diversa e brasileira.

Entre os tantos pratos que já criou, Saulo afirma que o “Casa do Saulo” é o que mais representa quem ele é. “Ele tem peixe, camarão, farofa, arroz, feijão-manteiguinha e vinagrete. Não é um prato que tenta complicar a cozinha. É farto, é para compartilhar e tem sabores que fazem parte da nossa mesa. Acho que me representa justamente por isso: é a comida do Tapajós servida do jeito que eu gosto de receber as pessoas”.

Caldeirada paraense | Foto: Divulgação/Marinho Rodrigues

A mesa como ponte entre a Amazônia e o Brasil

Essa ideia de aproximar pessoas por meio da comida acompanha Jennings desde a infância. “A gastronomia é uma das melhores portas de entrada para conhecer um território e uma cultura. Quando uma pessoa vai a Santarém e se senta à mesa para comer um pirarucu, ela está conhecendo muito mais do que um prato. Está entrando em contato com as histórias daquele lugar. Essa ideia de que a comida também é uma forma de criar vínculo eu aprendi com meu pai. Para ele, a partilha era muito importante. Levo isso para os meus restaurantes até hoje”.

FOTO: Divulgação/ Victor Alvarenga

Por isso, sua atuação também se estende para além das cozinhas. O chef trabalha diretamente com pescadores, agricultores e pequenos produtores e afirma que sua rede de parceiros envolve mais de 400 famílias ribeirinhas. A sustentabilidade, nesse contexto, não aparece como um conceito separado da gastronomia, mas como parte do próprio funcionamento de sua cozinha. “Antes de ser cozinheiro, gosto de dizer que sou um ativista”. A frase resume uma mudança importante em sua trajetória. Se no início o desafio era fazer com que as pessoas conhecessem a comida do Tapajós, hoje Jennings quer que o crescimento dessa gastronomia aconteça junto com os territórios e as comunidades responsáveis por mantê-la viva.

Depois de tantos prêmios e reconhecimentos, ele diz não sentir mais a necessidade de provar algo individualmente. O que o move agora é construir. E, nessa construção, o sucesso da Casa do Saulo só faz sentido se também significar mais oportunidades para os produtores, pescadores e comunidades que estão na origem de cada ingrediente.

A Casa do Saulo- São Paulo

Rua Bela Cintra, 954 – Consolação

_________

POR Beatriz Freitas
FOTOS DESTAQUE: Divulgação/ Victor Alvarenga
FOTOS: Divulgação/ Victor Alvarenga e Divulgação/ Nereu Jr.

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