Após 67 anos, Rodeio muda de endereço na Haddock Lobo, preservando tradição
Foram apenas 50 passos. Depois de quase sete décadas no número 1498 da rua Haddock Lobo, o Rodeio percorreu poucos metros da mesma calçada e passou a receber seus clientes no número 1448. É uma distância pequena para uma churrascaria que, desde 1958, se tornou parte da paisagem afetiva dos Jardins. Afinal, a combinação de carnes de alta qualidade, serviço atento e receitas que viraram clássicos transformou o restaurante em ponto de encontro de personalidades e nomes importantes da vida paulistana. “Continuamos na mesma calçada, prontos para continuar colecionando histórias”, diz Silvia Macedo Levorin, proprietária e filha do saudoso Roberto Macedo, que fez do restaurante um ícone da cidade.
A mudança de endereço, ela conta, nunca esteve nos planos. Ao longo dos anos, propostas de incorporadoras não faltaram, mas o negócio da família sempre foi o restaurante, não o mercado imobiliário. A oportunidade surgiu quase por acaso: uma negociação anterior envolvendo um estacionamento resultou em um imóvel comercial na própria Haddock Lobo. Quando surgiu a possibilidade de mudar, pesaram a chance rara de não interromper a operação por muito tempo e, sobretudo, continuar na rua onde o restaurante construiu sua história. Antes de decidir, Silvia consultou três figurões com uma relação especial com a casa: o arquiteto Isay Weinfeld, o jornalista Thomaz Souto Corrêa e o publicitário Washington Olivetto. Todos apoiaram a mudança. “Foram três avais de pessoas cuja opinião eu respeitava muito”, conta.

FOTO: Daniel Cancini
Se do lado de fora pouco mudou, basta entrar para perceber a transformação. Isay, cliente de longa data e também autor do projeto da unidade do Shopping Iguatemi, buscou transportar para uma arquitetura inteiramente nova a atmosfera de uma casa construída aos poucos, durante décadas. No endereço antigo, imóveis vizinhos foram incorporados até chegar a quatro salões e mais de 1.200 m². Na nova casa, colunas recriam a sensação de ambientes menores e mais íntimos. O amarelo, associado à identidade do restaurante, reaparece em uma leitura contemporânea, ao lado de couro, tons terrosos, fibras naturais e peças de arte brasileira. Um dos elementos mais marcantes é o forro inclinado, concebido quase como uma escultura arquitetônica – além do efeito visual, tem função acústica e cria a sensação de luz natural.
Nos bastidores, a mudança foi significativa. A possibilidade de começar do zero permitiu planejar cozinha, câmaras frigoríficas, áreas de manipulação e sistema de exaustão de acordo com as necessidades atuais da operação. Mas aquilo que chega à mesa permanece reconhecível. A picanha fatiada, preparada nas grelhas do salão, segue protagonista absoluta, acompanhada pelo palmito assado e pelo arroz Rodeio, como aparece no cardápio. A receita nasceu dos encontros da turma da Democracia Corinthiana no restaurante: entre sugestões à mesa, arroz, bacon, ovo, cebola, cebolinha e batata palha acabaram formando a mistura que ganhou o nome do jogador Biro-Biro, assunto daquele dia.

FOTO: Daniel Cancini
Casa nova, mesmo atendimento
Se os sabores permanecem, o mesmo vale para um dos grandes patrimônios da casa: o atendimento. O barman sabe a caipirinha do cliente habitual e o garçom conhece o ponto da carne e até a maneira de temperar a salada. Uma intimidade construída ao longo dos anos e favorecida pela permanência dos funcionários. Zé Ferreira, o maitre, acaba de se aposentar depois de 44 anos; em 2024, Chagas, gerente de atendimento, encerrou a carreira após impressionantes 50 anos de casa. “A relação dos nossos colaboradores com o cliente traz esse acolhimento, é uma coisa muito espontânea”, diz Silvia.
Ela conhece essa cultura por dentro. Entrou no Rodeio em 1986 e trabalhou durante décadas ao lado do pai, morto em 2012. Ao assumir responsabilidades cada vez maiores, percebeu que seu papel não era reinventar aquilo que funcionava, mas entender o que havia de especial e criar estruturas para preservá-lo. Vieram sistemas de gestão de qualidade, fichas técnicas, avaliação de fornecedores e a formalização do plano de carreira. “É uma maneira de transformar em método algo que durante muito tempo aconteceu naturalmente”, explica.
Depois desta mudança de 50 passos, o próximo movimento será bem maior. Em 2027, o Rodeio irá estrear sua primeira operação fora de São Paulo, na expansão do Iguatemi Brasília. Para Silvia, é mais um capítulo na trajetória de uma casa que avança sem abrir mão da própria identidade. “Costumamos falar que é o clássico que se renova. É uma evolução constante para continuar o mesmo”.

FOTO: Divulgação
Rua Haddock Lobo, 1448 — Jardins
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POR Tatiana Sasaki
FOTO DESTAQUE: Divulgação/ Brenno Medeiros
FOTOS: Divulgação/ Filipe Nevares

