Do improviso ao ícone: Amaury Jr. e os bastidores de uma vida em frente às câmeras
Um host tão completo que ele só precisou de um nome próprio para se consagrar – sem necessidade de sobrenome – numa carreira brilhante de 50 anos e 60 mil entrevistas. Aqui, o entrevistado é ele.
Estamos completando 30 anos e estou recebendo um amigo há mais de 40, lenda viva da TV brasileira, que já entrevistou mais de 60 mil pessoas, de anônimos a presidentes da República, e está completando 50 anos de carreira. Quem sou eu para entrevistá-lo? Amaury Jr.!
Norberto Busto! Você é uma espécie de irmão. E só não temos mais convivência –, mas temos um carinho especial, um pelo outro, por tudo o que nos aconteceu nas últimas décadas. Acompanhei o começo da GoWhere…
E sempre me prestigiou. Você e o Faustão têm um papel preponderante no sucesso crescente da GoWhere nesses anos.
Sempre acreditei no projeto GoWhere. Você fez, ao longo dos 30 anos, revistas belíssimas, Lifestyle, Gastronomia, Business – que guardo, não porque fui capa de algumas, mas pela qualidade editorial. Me sinto honrado aqui.

FOTO: Daniel Cancini
Nas festas e eventos que você cobria, e eu modestamente era um mero convidado, eu ficava impressionado com sua desenvoltura e seu carisma, naquela muvuca toda. Ali fiquei seu fã.
Obrigado. De fato, fui criado no improviso. Um dos temas do meu programa eram as festas – e a gente não sabia quem ia estar presente. O improviso era fundamental.Tudo arranjado na hora. Anos e anos improvisando me fizeram um bom improvisador…
Para fazer esta entrevista com você, me prepare. Você nasceu em Catanduva, interior de São Paulo…
Sim, meu pai era filólogo e professor e, logo depois que nasci, foi transferido para São José do Rio Preto. De coração, sou nascido em Catanduva e Rio Preto.
Quais são as marcas de São José do Rio Preto em sua carreira?
Meu único irmão, meu pai e minha mãe já partiram. O que me ligava à cidade era minha família. Meu pai foi o grande responsável por minha vocação para jornalista. Excepcional mestre em português, colaborador do grande Antônio Houaiss, meu pai me obrigava a ler um livro por mês e depois descrevê-lo – o que eu mais detestava (risos). Mal eu sabia que meu pai estava me fornecendo munição para eu enfrentar minha vida profissional.

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Mas por que você foi estudar Direito?
Porque meu pai achava que a profissão de jornalista era uma porcaria, coisa de sonhador e bebum. E, naquele tempo, advogado tinha mil privilégios – incluindo não pagar imposto de renda e viajar de avião de graça, ônibus e até táxi. Mas o sonho de meu pai era me ver advogado. E eu já estava trabalhando como jornalista em Rio Preto, por força do vocabulário que meu pai me fez desenvolver pela leitura.Trabalhei um pouco na advocacia, no ramo administração predial, mais para satisfazer meu pai – mas eu já estava vivendo do jornalismo. Meu primeiro trabalho foi uma coluna estudantil num jornal local sobre meu
colégio, mais tarde transformada em coluna social, com fotos de moças bonitas em eventos e atividades artísticas da cidade. Fiquei fã do Tavares de Miranda, colunista da Folha.
Como chegou a São Paulo?
Acabei abrindo um jornal em Rio Preto, chamado Dia e Noite, em sociedade minoritária com o lendário José Hamilton Ribeiro, que há pouco fez 90 anos. Um sucesso editorial, mas um fracasso empresarial. Estávamos os dois desempregados, o José Hamilton voltou para São Paulo. E me estimulou: vem para cá. De fato, Rio Preto não dava mais. Comecei em São Paulo como repórter na TV Tupi, para cobrir de tudo – até enchente e crime, desmoronamento… Eu tinha um apartamentozinho no centro, já tinha filhos. Era um momento de procura por telejornalistas, não carinhas bonitas lendo notícias. Depois a Tupi fechou e eu fui parar no Diário Popular, com uma coluna diária.
Aí você foi para o rádio…
Sim, fui convidado para fazer um programa às 6 horas da tarde na Rádio Gazeta,hora do rush, muita sintonia com os paulistas. Entrevistas, notícias, comentários. Era perto da TV Gazeta. Vim de Rio Preto com o ranço de coluna social, e ao chegar a São Paulo virei colaborador do Zé Tavares de Miranda, passando notícias para ele na Folha de S. Paulo. Pensei: numa coluna social conduzida para a TV, a imagem abreviará as palavras – bufês, decorações, costumes das damas da alta sociedade. Fui falar com o José Roberto Maluf, presidente da Fundação Cásper Líbero, dona da TV Gazeta. Ele me perguntou o que eu me propunha fazer. Vou a festas frequentadas por pessoas que fazem a cidade acontecer. E o frufru das colunas sociais será traduzido pelas imagens. Maluf acreditou: “Ok, te dou cinco minutos por dia”. Eu disse: então o programa vai se chamar “Flash”. Meu primeiro entrevistado foi o dramaturgo Antonio Bivar, que estava lançando um livro. A primeira atriz entrevistada no evento, a Maria Zilda. Um flash com os dois.

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O Flash ficou em cinco minutos mesmo?
No primeiro mês. No segundo mês,foi para 15.O blend de imagens com entrevistas pegou. Fiquei na Gazeta um ano,fui convidado para uma hora na Record, de lá para a Band em rede nacional. De toda essa ebulição, gostaria de lembrar aqui uma frase do saudoso Washington Olivetto, que definiu muito bem nosso programa: “O programa do Amaury vai do útil ao fútil, nunca esbarrando no inútil”. Sempre fico chateado quando uma entrevista não rende pelo menos uma frase ou uma informação relevante.A frase do Washington passou a ser minha.
Qual foi a entrevista mais desafiadora das 60 mil que você já fez?
A entrevista, ou o balbucio, do João Gilberto, monossilábico – no total, 72 palavras. Mas há outros momentos inesquecíveis. Minha conversa com a Liza Minelli foi emocionante. Pouco antes de entrar no ar, ela tinha recebido a notícia, de seu médico fisioterapeuta em Nova Iorque, de que não poderia mais dançar. Imagine, um ícone dos palcos da Broadway. Depressão imediata. Foi uma entrevista emocionante, em que ela externou sua mágoa com a não sequência da carreira.
O que mudou no comportamento da elite brasileira nesses anos?
Tudo. Com o advento da internet, as pessoas dão suas próprias notícias. Perdemos as fontes. Cada um dá seu furo. Colunistas ficam em segunda mão.

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Eram festas inesquecíveis no Gallery, Ta Matete… E hoje?
Foi uma época em que as pessoas gostavam de ostentar – o carro mais bacana, a gorjeta mais alta. Os tempos corrigiram isso, vieram outros adventos,como os sequestros,mais recentemente a pandemia, as pessoas se recolheram.
Mas festa boa tinha que ter Amaury Jr. Você era uma referência…
Sim, porque eu fazia um programa diário que precisava de muito conteúdo e eu não perdoava festa nenhuma. E às vezes eu conferia às festas a importância que elas não tinham. Eu também errava.
Alguém que você, numa entrevista, te surpreendeu com um conteúdo culto?
Agora mais recentemente o Leandro Karnal. Sabia que era bom – mas não tanto.

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Você deve ter colecionado mil lances com tantas entrevistas.
Uma vez fui entrevistar a Dercy Gonçalves e ela me recebeu na coxia do teatro. Eram 9 e 10 da noite, o espetáculo estava marcado para as 9, mas ela insistiu em começar a entrevista imediatamente.Aí eu disse:“Dercy,vamos assistir sua apresentação e depois fazemos”. E ela: “Ligue esse negócio logo (a câmera) e vamos fazer já.Eles esperam”.Comecei e,não deu cinco minutos, a plateia começou a protestar, batendo palmas. Ela pediu para dar uma paradinha na conversa, foi até a cortina, botou só a cabeça pra fora e gritou: “Já vai, porra!”. O teatro veio abaixo de tantas risadas. Voltou, terminou comigo e só então começou seu show. Essa era a Dercy. E fui eu quem fez com ela sua última entrevista, na companhia da Lilian Gonçalves. No dia seguinte, ela morreu.
Sobravam celebridades em seu programa…
Tive muito prazer em conversar com a Rainha Silvia, da Suécia. Brasileira, foi recepcionista das Olimpíadas e me contou que o rei Carlos Gustavo encantou-se com ela e, apesar de estar no camarote ao lado, a menos de dez metros, iniciou o flerte olhando Silvia com binóculos. Ele, de binóculos em punho, era uma cena muito divertida.
Conte mais…
A Céline Dion foi um gol em Las Vegas. Para citar só os astros internacionais que passaram pelo meu programa: Charles Aznavour, Paul Anka, Olivia Newton-John, The Beach Boys, Sophia Loren, Lionel Richie, Julio Iglesias, Donatella Versace, Carolina Herrera…Vou fazer um novo livro.
Tem saudade daqueles tempos?
Virei a página. Tem que enfrentar.

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Na seção “Perrengues pelo mundo”, você tem um episódio dramático com o ator francês Gérard Depardieu…
Estávamos num navio da MSC,eu queria entrevistá-lo e pedi à minha produtora,Paola Novaes,que hoje está na Band,que o procurasse para agendar uma entrevista. Ele bebe em volume industrial… Não parou de assediá-la – e ela tentando cumprir sua obrigação – a ponto de encurralar a Paola no corredor do navio.Por sorte,eu estava lá e espantei o homem. Claro, não o entrevistei.
Teve também a resposta genial que você deu para o Charles Bronson na Rodeo Drive, em Los Angeles…
Ele foi grosseiro comigo, mas não tenho mais razão para ficar com raiva,porque ele tinha acabado de perder a esposa para o câncer e era um evento em benefício do câncer. Me apresentei e pedi uma mensagem ao Brasil. E ele: “Bra, o quê? Que país é esse?”. Respondi:“Aquele país que assiste seus filmes canastrões e te dá um puta monte de dinheiro. Passar bem.” Fui embora.
Tem registro de festas marcantes na sua carreira festeira? Eu lembro de uma em que eu estava:os 79 anos da Hebe Camargo,na cidade do Porto, Real Companhia Velha de vinhos.
Sim, outra foi a dos 80 anos da Hebe, festa produzida pela Lucília Diniz. Roberto Carlos, Julio Iglesias… As festas do saudoso Ciro Batelli em Atlantic City, Lake Taho e Las Vegas. Festas faustosas,à fantasia,só as imagens para acreditar na sua grandiosidade.

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Eu também me recordo da sua participação em alguns negócios – como a sociedade no Clube A, uma proposta inovadora que tinha tudo para dar certo… O que houve?
Desentendimento entre os sócios. Fiquei três anos no Clube A. A ideia foi minha, o nome é meu, o Clube A foi qualificado pela revista New Yorker como um dos mais bonitos do mundo. Mas as pessoas diziam que eu estava saindo do meu foco. Se faço festas ali para gravar, esse é o meu foco. Mas não deu certo. O Bittencourt, do A Bela Sintra, assumiu o restaurante, também não deu certo. E eu, desafortunadamente, estava bebendo muito… Bebendo o clube inteiro. Dono de casa noturna não pode beber. Quando senti que minha saúde estava em risco, vendi minha parte.
Lembro quando você completou 35 anos ininterruptos de televisão e me disse que precisava fazer uma festa. Fomos procurar o Giancarlo Bolla, fechamos o Leopoldo e fizemos uma festa inesquecível.
Agora vou comemorar 50 anos de TV e quero fazer uma festa com você. Estou entusiasmado. Consegui me adaptar à Internet. Estou com um blog no UOL Splash, a maior plataforma de notícias da América Latina, com notícias diárias, um canal no YouTube com 500 mil inscritos qualificados, ou seja, redes sociais bem armadas e aquecidas, além da TV Amaury dentro do blog. E acabo de fechar um contrato com a TV Connect USA, dos Estados Unidos, afiliada da CNN, emissora americana em língua portuguesa. Aos 50 anos de carreira, me convidaram para minha estreia numa TV americana e vamos que vamos.
Você é uma lenda viva da TV, Amaury.

FOTO: Daniel Cancini
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FOTO DESTAQUE: Daniel Cancini
FOTOS: Daniel Cancini e Divulgação

