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Como a Ralph Lauren transformou um estilo de vida em uma identidade global da moda

Ralph Lauren nunca vendeu apenas roupas. Vendeu um estilo de vida. Enquanto boa parte da indústria da moda perseguia tendências, ele construiu um universo próprio, inspirado no imaginário americano, e transformou essa visão em uma das marcas mais influentes do mundo. Sua estética – que mistura alfaiataria, esportes, referências equestres, denim e um refinamento aparentemente sem esforço – tornou-se tão reconhecível que deu origem a uma definição quase imediata: isso é muito Ralph Lauren. 

Hoje, o grupo Ralph Lauren está presente em dezenas de países, reúne linhas que vão do luxo à moda casual e atua nos segmentos masculino, feminino, infantil, de decoração e gastronomia. É um negócio global que movimenta bilhões de dólares por ano. Mas a história começou de forma simples, com a venda de gravatas. 

Ralph Lifshitz nasceu em 1939, no Bronx, em Nova York, filho de imigrantes judeus da Bielorrússia. Cresceu em uma família de poucos recursos, em um bairro distante do glamour que mais tarde ajudaria a construir. Não estudou moda, mas tinha um senso estético muito particular, alimentado pelos esportes e pelo fascínio por um estilo de vida elegante que conhecia sobretudo pelas telas de Hollywood. Sua trajetória de self-made man, tema de livros e do aclamado documentário Very Ralph (2019), de Susan Lacy, acabaria se tornando ela própria uma expressão do American Dream. 

FOTO: Divulgação Ralph Lauren

Ainda jovem, decidiu mudar o sobrenome da família para Lauren. Em 1967, trabalhando para uma fabricante de gravatas, lançou sua própria coleção. Em vez de seguir os padrões da época, apostou em modelos largos, feitos à mão com tecidos de qualidade e inspirados no glamour do cinema clássico. Em um momento em que a moda masculina era extremamente conservadora, aquelas gravatas chamaram atenção. 

A coleção recebeu o nome Polo. A escolha não foi casual. Ralph Lauren sempre cultivou uma relação afetiva com os esportes e enxergava no polo uma combinação rara de tradição, sofisticação e aspiração. O sucesso veio rapidamente quando convenceu a Bloomingdale’s a vender suas gravatas. As peças se destacaram e abriram caminho para roupas que completavam aquele visual. Vieram camisas, ternos e uma alfaiataria que reinterpretava referências britânicas sob a ótica americana. 

A invenção de um estilo 

Lauren nunca pretendeu reinventar o guarda-roupa masculino. Seu talento estava em reorganizar referências conhecidas de maneira inédita. O blazer de tweed ganhava leveza; o veludo cotelê deixava de parecer antiquado; o jeans, muito associado ao trabalho, passaria a conviver naturalmente com camisas refinadas, gravatas de seda e casacos esportivos. O clássico voltava a ser desejável porque parecia vivido, confortável e autêntico. A expansão para o universo feminino começou em 1971, adaptando para as mulheres aquilo que fazia bem: camisas impecáveis, blazers de montaria, casacos estruturados e uma alfaiataria confortável. 

FOTO: Divulgação

A inspiração vinha de Ricky Lauren, sua mulher e principal musa, cuja elegância natural ajudou a definir a imagem da americana moderna – sofisticada, confiante e sem excessos, exatamente no momento em que as mulheres conquistavam novos espaços na sociedade. No ano seguinte, o lançamento da camisa polo em uma variedade de cores transformou a peça em um clássico do vestuário cotidiano, fazendo do pequeno cavaleiro bordado no peito um dos logotipos mais reconhecidos do planeta. 

Ao longo das décadas seguintes, o designer refinou ainda mais sua linguagem visual. O universo equestre ganhou protagonismo, assim como as referências ao Velho Oeste, ao estilo militar, ao safári africano e às histórias românticas ambientadas em grandes paisagens americanas. A combinação dessas influências produziu uma estética única, em que vestidos fluidos podiam aparecer com jaquetas de couro envelhecido, enquanto delicados tecidos dourados eram equilibrados por casacos de inspiração utilitária. Ralph Lauren sempre enxergou beleza nos contrastes. 

FOTO: Divulgação

Um Mundo Ralph Lauren 

Se as coleções criavam personagens, as campanhas publicitárias lhes davam vida. Em parceria com fotógrafos como Bruce Weber, a marca apresentou famílias reunidas na praia, estudantes da Ivy League, ranchos no Colorado, bandeiras americanas ao vento e tardes de verão. A narrativa ganhava ainda mais força porque o próprio Ralph Lauren a vivia. Ao lado de Ricky e dos filhos, ele aparecia em imagens usando jeans, botas de cowboy e jaquetas de couro, em cenários que refletiam seu cotidiano. Tornou-se o principal embaixador de sua marca. Sua maior inovação, porém, foi compreender que as pessoas não desejavam apenas comprar roupas. Queriam comprar um modo de viver. Em 1983, lançou a Ralph Lauren Home, primeira coleção completa para casa criada por um designer de moda, levando sua estética para móveis, roupas de cama, mesa e objetos. Três anos depois, inaugurou a flagship na Madison Avenue, instalada em uma histórica mansão em Nova York. Com pisos de carvalho, tapetes persas e lareira de mármore, o espaço transportava o cliente para dentro daquele universo aristocrático e ajudou a estabelecer uma nova maneira de pensar o varejo de luxo. 

Com o tempo, a empresa passou a organizar seu portfólio em diferentes linhas, capazes de atender públicos distintos sem perder identidade. A Polo Sport levou a estética americana para um guarda-roupa esportivo e urbano. A Double RL, batizada com as iniciais de Ralph e Ricky, aprofundou a paixão pelo estilo do Oeste americano. Já a Purple Label elevou a alfaiataria ao mais alto padrão, inspirada na tradição europeia. 

Quase 60 anos depois da primeira gravata, o universo criado por Ralph Lauren permanece imediatamente reconhecível. Mudam as coleções e as gerações, mas ficam as franjas, os cavalos, o couro, o esporte e uma certa ideia de elegância americana. Um estilo que, a essa altura, dispensa assinatura: é muito Ralph Lauren. 

FOTO: Divulgação

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POR Tatiana Sasaki
FOTOS: Divulgação

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