Aos 97 anos, Nathália Timberg volta aos palcos com o espetáculo “Fôlego”
Aos 97 anos, atriz Nathália Timberg volta aos palcos com “Fôlego”, espetáculo inédito escrito por Andréa Bassitt, especialmente para a atriz. Com direção de Ricardo Grasson, a montagem está em cartaz no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, e permanece até 13 de dezembro. Carla Marins e Rita Elmôr completam o elenco.
Na peça, Nathália interpreta Rosa, uma atriz que fundou um teatro ao lado da irmã e do cunhado, ambos já falecidos. Durante décadas, os três mantiveram o espaço, que se tornou uma referência cultural de sua geração. Agora, sozinha, Rosa enfrenta dificuldades financeiras e a falta de recursos para manter o teatro aberto. O conflito se intensifica quando sua sobrinha Juliana (Carla Marins) apresenta uma proposta de venda do imóvel para uma igreja. Em meio à ameaça, Rosa encontra apoio em Laura (Rita Elmôr), sua afilhada e filha de uma antiga camareira do teatro.
Embora tenha sido concebido a partir da trajetória de Nathália Timberg, Fôlego não é uma obra biográfica. Para desenvolver a dramaturgia, Andréa Bassitt pesquisou a vida da atriz e criou uma narrativa ficcional inspirada em sua relação com a arte e o palco.

FOTO: Divulgação/ Fernando Ocazione
“Deixei que a imaginação ficasse livre para falar de uma mulher cuja casa é o teatro, essa foi a essência do texto. A partir desse ponto, deixei que a imaginação fluísse, mas sem perder a conexão com a vida dela, toda dedicada ao teatro que, num sentido metafórico, se tornou sua casa”, explica a autora.
A relação entre a atriz e a personagem também se manifesta na maneira como ambas compreendem o teatro como parte essencial da vida. Para Nathália, a volta aos palcos representa a retomada de algo fundamental em sua trajetória. “É uma vida inteira respirando teatro. Foi assim que aprendi a estar no mundo e a me comunicar com os que estavam à minha volta. Depois desse tempo longe dos palcos, é como se eu tivesse estado privada de ar e agora, finalmente, pudesse voltar a respirar”, afirma.
Ao longo da dramaturgia, referências à carreira da atriz e à história do teatro brasileiro atravessam a ficção. Uma delas é Antígona, de Jean Anouilh, protagonizada por Nathália em 1964. Em uma das apresentações, a plateia se manifestou junto à personagem, dizendo “não” a Creonte, em um episódio que integra a memória da atriz e da cena teatral brasileira.

FOTO: Divulgação/ Fernando Ocazione
Ricardo Grasson, que trabalha com Nathália há quase 20 anos, destaca a aproximação entre a história da protagonista e a trajetória da intérprete. “A Rosa mistura muito da história de vida da Nathália e da história do teatro brasileiro. É uma atriz de 97 anos que passou a vida inteira no teatro, vivendo com o teatro e vivendo do teatro. É um pouco o que a Nathália faz hoje: ela não deixa o teatro sair dela”, afirma o diretor.
A ameaça de fechamento do espaço amplia a narrativa para uma reflexão sobre a continuidade das artes cênicas e os desafios enfrentados pelos teatros. A situação de Rosa dialoga com um cenário em que salas encerram suas atividades e outras formas de consumo cultural disputam espaço com as experiências presenciais.
Na encenação, Grasson pretende preservar o realismo da dramaturgia, sem abrir mão de elementos imagéticos e lúdicos. “O espetáculo fala do passado porque é importante termos consciência dos que vieram antes e do que foi feito antes, para entendermos aquilo que estamos fazendo e o que queremos para o futuro. Pretendo trabalhar de maneira muito realista, porque o texto nos coloca diante daquilo que estamos vivendo. Vamos lidar com o imagético e o lúdico, mas com o pé no chão”, explica.

FOTO: Divulgação/ Fernando Ocazione
Para Andréa Bassitt, a história ultrapassa a defesa de um espaço cultural específico e aborda o papel da arte na sociedade. “A arte, por meio do teatro, se comunica diretamente com a plateia, com a sociedade, que é um reflexo das histórias contadas em cena”, afirma.
A autora também relaciona o conflito às dificuldades enfrentadas pela própria protagonista, uma mulher que dedicou a vida ao trabalho e vê seu futuro ameaçado. “Rosa é uma senhora de 97 anos, que trabalhou a vida toda, fez uma carreira digna, não tem filhos e vê sua vida sendo ameaçada por um sistema que devora os mais frágeis. A luta de Rosa é a luta de todos nós”, diz.
A continuidade do teatro, afinal, é uma das questões centrais da montagem. Para Grasson, a presença de Nathália em cena representa a disposição de seguir trabalhando e mantendo viva essa relação com a arte. “Ela tem consciência de tudo o que fez e vontade de continuar fazendo até o último dia. É isso que a Nathália pensa hoje: continuar trabalhando, continuar fazendo teatro. A gente vai passar, mas o teatro continua.”

FOTO: Divulgação/ Fernando Ocazione
Fôlego
Até 13 de dezembro
Sesc Santo Amaro
Rua Amador Bueno, 505 — Santo Amaro
Quintas, sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h
Ingressos pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site https://centralrelacionamento.sescsp.org.br/ .
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FOTOS: Divulgação/ Fernando Ocazione

