Aos 87 anos, Guido Totoli segue transformando arte em legado entre Itália e Brasil
Aos 87 anos, Guido Totoli ainda tem o sangue fresco – ou seria afresco, uma de suas especialidades? – para múltiplas manifestações de arte, como pinturas, esculturas, cerâmicas e painéis. Hoje instalado num belo casarão-ateliê no bairro do Butantã, habitat de cobras, no caso artística, Totoli nasceu em Mercato Silento, província de Salerno, Itália, e migrou para o Brasil em 1958 aos 21 anos, de onde não mais saiu. Desde o final da Segunda Guerra, a Itália ficou num status social radicados muito difícil – a maior parte da população queria partir. O jovem Guido, já envolto por vários formatos de arte, estava entre esses. O mais lógico seria zarpar para os States, onde tinha parentes. Mas a namorada Pietra tinha um irmão alfaiate – profissão à época cobiçada no Brasil. Ele veio para São Paulo e ela foi junto. “Achei que tínhamos acabado. Mas ela não se adaptou a São Paulo e avisou que a única coisa que podia segurá-la era eu também vir para cá”. Veio. Casaram. Até hoje Guido e Pietra formam um casal indestrutível.

FOTO: Daniel Cancini
Volpi e Portinari
Apesar de quase 70 anos de Brasil, Guido ainda capricha no sotaque italiano. Mas o que há de mal nisso numa cidade em que muitos paulistanos da gema falam um português italianado? Para encurtar a história, Guido veio, com passagem de navio paga. Faltavam quatro dias para o Natal de 1958. “Ao contrário de Pietra, fiquei apaixonado pelo Brasil – onde, aliás, não havia artista capaz de fazer afresco”, diz esse egresso do país da Capela Sistina e, provavelmente, da arte mais refinada do Universo. Aliás, aqui se instalando, numa pensão da Consolação, entrou em contato com artistas conterrâneos, aqui radicados, como Alfredo Volpi, Candido Portinari, Hugo Adami e Ângelo Simeone – o que refinou ainda mais em técnica e estilo. “Volpi veio aqui em casa. Portinari ficou de vir, mas morreu antes da hora.” Para ganhar a vida de modo pleno e regular, sem depender do bom gosto de clientes, sobreviveu por muitos anos produzindo cartazes publicitários e até abriu uma empresa, a Atlanta painéis – mas Totoli sempre manteve uma intensa produção artística em seu ateliê, acervo esse hoje ocupando diversas salas do casarão do Butantã, com a filha Claudia, a “faz tudo” da grife Totoli, atendendo encomendas e visitas programadas ao magnífico patrimônio. Há várias “marcas registradas” do estilo Totoli – como pinturas estilizadas do célebre limão de Sorrento, encomendadas por restaurantes da cidade, além de esculturas femininas pontuadas por furinhos característicos e notas musicais em formatos geométricos.

FOTO: Divulgação
Arte ao sugo
Em 2024, Totoli criou um painel com mais de 400 azulejos pintados à mão em homenagem aos 150 anos da imigração italiana no Brasil, hoje instalado no Museu Municipal Bernardino de Campos, em Amparo (SP). Sua eterna ligação física com o país natal foi referendada na prática, em seis décadas, por uma viagem anual à Itália – que não se repete desde a pandemia. Mas vai ser retomada, por certo.
Totoli é considerado uma ponte cultural entre Itália e Brasil, trazendo temas e técnicas europeias para o contexto artístico brasileiro e contribuindo para a valorização da arte cerâmica e figurativa em São Paulo e além. Uma questão de tempo – nada impossível para quem chegou aos 87 anos com a arte nas veias, ao sugo.

FOTO: Divulgação
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POR Celso Arnaldo Araujo
FOTO DESTAQUE: Daniel Cancini
FOTOS: Divulgação e Daniel Cancini

