O desafio de escolher uma boa profissão e ser feliz com essa atividade
Pense por um instante: que profissão você recomendaria hoje a um jovem? Como é difícil dar esse tipo de conselho, pois quase todas parecem estar com os dias contados. Em breve, a IA deverá substituir, com vantagem, praticamente todas as atividades. Ou seja, não apenas o jovem, mas a maioria das pessoas, mais cedo ou mais tarde, terá de exercer funções diferentes das que pratica atualmente.
Já é possível aprender outra língua em pouco tempo, sem sair de casa, valendo-se de aplicativos gratuitos de excelente qualidade. Dá para redigir bons textos usando recursos como ChatGPT, Jasper, Perplexity, entre outros. Da mesma forma, projetos educacionais ou de arquitetura que consumiam horas agora podem ser realizados em minutos.
Um salário para cada habitante
Só nesses poucos exemplos, temos um indicativo de que várias profissões começam a ser eliminadas. Em entrevista preocupante, Elon Musk profetizou que talvez seja necessário dar um salário para cada habitante da Terra, pois não haverá mais emprego para todos. Há risco palpável de alguém concluir um curso superior quando aquela competência para a qual se preparou já deixou de existir. Chega a ser desestimulante. Tanta dedicação, tantas noites indormidas!
Quando se falava em escolher uma profissão, quase sempre pensávamos no jovem, que começava a trabalhar já nos últimos anos de faculdade. Salvo exceções como médico e dentista, que precisam concluir o curso antes de exercer a atividade. Embora advogados e engenheiros, também, como exemplo, possam nos primeiros anos iniciar estágios, exercer efetivamente a profissão só depois de formados.
Houve época, não faz tanto tempo assim, em que as profissões eram exercidas com relativa facilidade. A classe média praticamente não existia. Havia os que podiam e os que não podiam. Quem podia frequentava boas escolas públicas e se preparava para exercer uma das poucas carreiras universitárias disponíveis: Medicina, Direito ou Engenharia, talvez mais uma ou outra sem o mesmo destaque.
Quem não podia se virava como era possível. Se tivesse um pouco mais de preparo e boa dose de sorte, era aprovado em um concurso do Banco do Brasil ou frequentava um curso de contabilidade e se tornava guarda-livros. Para as mulheres, as opções eram ainda mais limitadas: enfermeiras, professoras ou secretárias. Ou seja, a vocação profissional se restringia ao que o mercado de trabalho oferecia com suas limitações.
A profissão era herdada
Era comum também os filhos seguirem a profissão do pai. O filho do advogado quase sempre herdava o escritório e continuava exercendo a atividade paterna. O mesmo ocorria com os médicos e, em menor número, com os engenheiros. Não era raro o filho de alfaiate exercer o ofício da família, assim como o sapateiro. A vida, naturalmente, tinha seus sobressaltos, mas as pessoas podiam contar com um destino mais ou menos traçado. Os tempos mudaram. Com o desenvolvimento econômico do país e o aparecimento das escolas noturnas, muitos puderam trabalhar durante o dia e estudar à noite. Dessa forma, não foram poucos os que encontraram caminhos diferentes daqueles idealizados pelos familiares. A chance de encontrar sua verdadeira vocação, a atividade que lhes permitisse se realizar, aumentou.
Formados sem vocação
Não significa, entretanto, que a multiplicidade de atividades tenha garantido a realização de um sonho profissional. Hoje, muitas faculdades despejam formandos que não têm ideia do que foram fazer nos bancos escolares. Por serem despreparados, frustram-se e se veem obrigados a se contentar com trabalhos menores, sem gratificação pessoal. Ao contrário do que acontecia em tempos idos, as escolas públicas já não são, em geral, aquelas que preparam bem o aluno para aspirar a uma boa faculdade. Normalmente, essas vagas são ocupadas por quem frequenta instituições particulares, que acabam capacitando melhor os alunos para os cursos superiores mais disputados.
A dificuldade para escolher uma profissão
Além dessas questões, surge a tecnologia para mudar o rumo no meio do caminho. Quase como consertar o avião em pleno voo. Não que esses desvios já não ocorram. É comum a pessoa fazer uma faculdade e nunca atuar naquela profissão. Para citar um dado relevante, estima-se que apenas cerca de 35% dos bacharéis em Direito no Brasil atuem como advogados. Esses fatos não diminuem a preocupação dos pais ou responsáveis pela educação das crianças. Ao contrário, aumentam ainda mais a responsabilidade dessa escolha. Como agir com relativa segurança diante de uma decisão tão complexa? Será que as atividades ligadas à tecnologia seriam a melhor opção? Ao que tudo indica, sim. Mas quem garante que também essas não serão substituídas pelas máquinas?
O que nunca sai de moda
Confesso que teria dificuldade em escolher hoje uma profissão. A de professor de oratória, por exemplo, continuará a existir? Nada impede que um bom aplicativo consiga dar aulas de qualidade para ensinar a falar em público. A de escritor de livros ou de colunista na grande imprensa? Essa, mais ainda, poderá desaparecer em breve. Em muitos casos, já não existe mais. Com a minha experiência, tendo acompanhado infindáveis transformações no mercado de trabalho, arrisco uma sugestão com boa dose de convicção. Independentemente da carreira que venha a abraçar, aprenda o máximo possível sobre Matemática, Português, Oratória, Ciências e pelo menos duas línguas estrangeiras. Esse conhecimento continuará sendo valioso, faça o que vier a fazer.
Trabalhar com prazer
São os meios para desenvolver a profissão que desejar. Lembro-me de uma conversa que tive com o saudoso amigo Flávio Gikovate, um dos mais importantes psiquiatras da história brasileira. Conversávamos sobre um tema em que se especializou: a felicidade. Nunca mais me esqueci do que ele disse sobre como ser feliz a partir da vocação profissional. Segundo ele, entre outros motivos, é feliz a pessoa que consegue descobrir sua vocação e tem condições de se dedicar a essa atividade. Concordo. Trabalhar com prazer é um dos caminhos mais seguros para a felicidade.
Preparo, vocação, oportunidade e sorte
Por isso, ainda que seja um grande desafio, cada um deve perseguir o sonho de encontrar uma profissão pela qual se apaixone e sinta prazer em se dedicar. A realização desse sonho depende de vocação, preparo, oportunidade, sorte e muita dedicação. De nada adianta preparo sem vocação. A oportunidade talvez nem seja percebida sem preparo. A sorte só se revela diante da oportunidade. A dedicação só será produtiva se a sorte indicar o caminho certo. Por isso, cada um deve fazer o que puder para ser feliz. E essa conquista não está necessariamente relacionada ao dinheiro, mas ao prazer de realizar o que gosta e fazer com competência aquilo a que se propõe.
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POR Reinaldo Polito, autor da coluna Go Speech, publicada na edição 31 da GoWhere Business
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