Como os conflitos no Oriente Médio afetam a economia brasileira
O Brasil, mesmo à distância, vem convivendo com os desafios relacionados à guerra no Oriente Médio. Não adianta ser um grande produtor e exportador de petróleo. Pode até ter ganhos financeiros maiores com a receita e royalties provenientes do comércio da commodity. Mas os preços dos combustíveis subiram, independentemente de estratégias do governo, especialmente no manejo tributário e com subvenções. Sendo que, pelo efeito dominó, por mais contidos que tenham sido esses aumentos, a pressão foi se alastrando para outros segmentos. Subiram os fretes, que entram na formação dos preços finais de outros produtos, inclusive na cadeia de alimentos – ainda prejudicada pela menor oferta de fertilizantes. Outros ramos de atividades também sentem as consequências relacionadas ao aumento de preços dos insumos, de embalagens plásticas aos materiais de construção e área industrial. O pior é que as restrições do transporte no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do mundo, ainda podem ter efeitos prolongados.
Impactos globais
Vemos, com maior ou menor intensidade, os vários países lidando com as consequências. A Europa já teve de restringir atividades industriais em razão da menor oferta ou encarecimento do gás. Os consumidores nos Estados Unidos já encararam aumentos de mais de 50% no galão da gasolina. Organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, têm divulgado estudos prevendo mais inflação, aperto monetário e, possivelmente, menor expansão das economias em função da guerra. Por mais que haja preocupação quase global com a redução do uso de combustíveis fósseis e sua substituição por energia limpa, o petróleo ainda é um produto estratégico dos mais relevantes.
Impactos internos
Por aqui já são semanas, meses, de piora das projeções e das variações dos índices de inflação, revertendo o movimento mais benigno que vinha sendo registrado até o final de fevereiro, quando começaram os primeiros bombardeios. Enquanto o mercado já estima o IPCA, índice oficial de inflação, com variação perto de 5% este ano, a variação acumulada em 12 meses já volta a se aproximar do teto da meta, os 4,5%.
Como consequência da piora do cenário inflacionário veio a cautela da política de juros – cortes da Selic abaixo das expectativas. Devemos conviver com juros mais altos por mais tempo. O novo cenário já tem alterado as expectativas até para os próximos anos. A taxa básica pode ficar nos dois dígitos até 2029, sem nenhuma boa surpresa no caminho. A projeção da taxa básica para o fechamento deste ano, que estava entre 12% e 12,25% no final de fevereiro, antes dos primeiros ataques ao Irã, já avançaram para 13,25%.
Consequências
Para quem tem recursos para investir fica a certeza de ganhos elevados nas aplicações atreladas aos juros, inclusive em termos reais, ou seja, acima da inflação. Por outro lado, tem os milhões de endividados, os que já viviam no aperto financeiro, sem poder bancar todas as despesas, agora mais pressionados pelo custo de vida em alta e pelo custo do crédito. Tem os programas de renegociação, como o Desenrola. Mas não se pode confiar num alívio mais prolongado. Tem sido assim a cada programa de acerto de dívidas que tivemos no passado. E o problema financeiro não se restringe aos de menor renda, não é exclusividade dos mais pobres. Tem muita gente com renda elevada também perdendo o sono para buscar saídas para o rombo nas finanças. A inadimplência recorde também chegou à área empresarial, onde também têm avançado os pedidos de recuperação judicial. Sem esquecer que os juros altos são uma trava para decisões de investimento das empresas, não só pelo custo, mas pelo impacto contracionista que podem ter na economia.
Medidas de alívio
O governo, até por ser um ano de eleições, tem buscado dar fôlego adicional ao consumo e à atividade econômica. São os programas de renegociação de dívidas, que se estendem a produtores rurais e ao Fies, ampliação dos limites de renda e valor dos imóveis no Minha Casa Minha Vida; o Programa Acredita, com linhas de crédito diferenciadas, microcrédito para usuários do CadÚnico e incentivo a Microempreendedores Individuais (MEIs) e pequenas empresas; o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), focado no estímulo à infraestrutura, obras públicas e parcerias público-privadas, para reaquecer a construção civil e a indústria; Renovação de Frota para Apps, com crédito subsidiado do BNDES para motoristas de aplicativos e taxistas, dando incentivo à troca por carros novos ou elétricos; o Pé-de-Meia, com incentivo financeiro, na modalidade poupança, para estimular a permanência e conclusão do ensino médio público; o Bolsa Família; o Crédito Assistido (BNDES e Finep) voltado à neoindustrialização, inovação e transição ecológica (Plano Mais Produção e Brasil Soberano).
Agora, por mais que tenham impacto positivo do ponto de vista social e para o empreendedorismo, ao liberarem mais recursos, com crédito mais barato, esses programas em boa medida reduzem a eficácia da política monetária, além de mexerem com as contas públicas, via gastos ou redução das despesas – como a perda de arrecadação com a reversão da “taxa das blusinhas” – o que, no balanço geral, torna mais difícil a flexibilização da política de juros, já afetada pelas pressões inflacionárias decorrentes da guerra.

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Não dá para escapar sem consequências
Ainda que o Copom siga com os cortes conta-gotas da Selic, as instituições financeiras, diante do endividamento elevado e risco de inadimplência, que não diminuiu com o Desenrola, ficam mais seletivas na concessão de crédito, além de manter taxas mais elevadas. É a velha história: quem paga em dia paga mais pra compensar os que dão calote.
É por todas essas condições que se pode dizer que estamos vivendo uma situação de “economia de guerra”. Não estamos no meio do conflito, mas não passamos ilesos. É fato que já vínhamos com desafios como a alta do custo de vida, não compensada pelo aumento do emprego e da renda; as contas públicas já traziam incertezas, com reflexos na política monetária. Porém, tínhamos entrado em uma fase de queda da inflação, de convergência das projeções para a meta, que permitiria cortes maiores dos juros básicos, distensionando o cenário econômico em vários aspectos. A guerra alterou essas perspectivas, contaminando inclusive as projeções de inflação e juros para os próximos anos.
O dólar, rodando em patamar abaixo do previsto frente ao Real, ajuda a conter um pouco as pressões inflacionárias, mas não a ponto de aliviar as incertezas com as quais o Copom vem trabalhando. E é importante não perder de vista que boa parte da acomodação do dólar vem do redirecionamento de investidores na busca de outras opções que não os Estados Unidos, por dúvidas causadas pelas políticas de Trump, tanto econômicas, caso do tarifaço e da piora fiscal, como das ações geopolíticas, que implicam mais gastos, além de provocar aumento do custo de vida, também por lá.
Só que em momentos de maior aversão ao risco, é para os títulos do Tesouro dos EUA que os investidores retornam. Movimento que pode ser reforçado no caso de o Federal Reserve ter de elevar os juros, não apenas dar uma pausa, como já se tinha precificado, justamente pelo aumento da inflação.
Países emergentes como o Brasil podem exercer atratividade, por conta dos juros mais altos, de boas oportunidades nas Bolsas. Mas, diante de incertezas maiores, os recursos estrangeiros podem migrar com muita rapidez. Contexto em que também se deve incluir o fato de estarmos em um ano de eleições, o risco político, que já tem causado momentos pontuais de forte estresse.
Enfim, é esperar que a guerra, se não tiver uma pacificação efetiva, pelo menos permita uma maior normalização da oferta do petróleo, especialmente. O conflito da Rússia contra a Ucrânia, que ainda prossegue, também provocou inicialmente um choque de preços de energia, fertilizantes e alimentos. Mas o mundo foi se ajustando e reduzindo o impacto. Tanto que o petróleo, no início deste ano, vinha ao redor dos US$ 70 o barril. Com o conflito no Oriente Médio testou os US$ 120. E por aí vieram as consequências mais pesadas, no âmbito global e para o Brasil.
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POR Denise Campos de Toledo, autora da coluna Go Economy, publicada na edição 31 da GoWhere Business
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