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Como o mobiliário corporativo deixou de ser acessório e virou ferramenta de gestão

Nos últimos anos, um movimento silencioso redesenhou o mercado imobiliário corporativo de São Paulo. Empresas de diferentes setores deixaram edifícios mais antigos e migraram para estruturas de padrão Triple A. São prédios com especificações técnicas mais rigorosas, certificações de sustentabilidade e localizações que, por si só, já comunicam um posicionamento. O fenômeno tem nome: flight to quality. Mas mudar de endereço é apenas o começo. Ao ocupar esses novos espaços, as empresas se veem diante de uma pergunta inevitável: o que colocar dentro? E é aqui que o mercado de mobiliário corporativo de alto padrão encontra seu momento. 

A corrida pela qualidade 

Pedro Torres, CEO Brasil da Artefacto, acompanha esse movimento de perto. Para ele, a mudança vai além da estética. O escritório, diz, deixou de ser um espaço neutro e passou a funcionar como extensão direta da cultura da empresa. E isso muda tudo na hora de escolher o que vai dentro dele. “O foco mudou para a qualidade, materiais nobres e um design que equilibra proporção e durabilidade. O escritório passou a operar como extensão da cultura da empresa, o que eleva o nível de exigência em relação aos materiais, ao design e ao conforto”, afirma Torres. Essa elevação de padrão tem efeitos práticos. Layout, circulação, áreas comuns e mobiliário passam a ser pensados de forma integrada ao projeto arquitetônico. O que antes era resolvido por um catálogo passa a ser desenvolvido em projeto. O mercado que emerge desse cenário é mais exigente e mais específico. Não basta ser funcional. É preciso ter presença. 

FOTO: Divulgação

O desafio do retorno 

A pandemia alterou a relação das pessoas com o trabalho de uma forma que ainda está sendo compreendida. O home office criou um padrão de conforto e autonomia que o escritório tradicional dificilmente consegue competir, a menos que se reinvente. Thais Paszko, Gerente Comercial da Flexform, coloca a questão sem rodeios: “Com o trabalho remoto, trazer os funcionários de volta ao ambiente corporativo passou a ser um desa o e, portanto, este ambiente precisa ser uma ferramenta de atração e engajamento”, a rma a executiva. A resposta que o mercado encontrou foi redesenhar o escritório por dentro. As grandes salas de diretoria, símbolo de uma hierarquia que também está em revisão, cedem espaço para áreas colaborativas, sofás, estações compartilhadas. O objetivo não é só tornar o espaço mais agradável. É torná-lo mais difícil de recusar. O escritório que emerge desse processo tem menos cara de escritório. Zonas de convivência, cantinhos de trabalho informal, e lounges que incentivam o encontro casual, aquele tipo de conversa que não acontece em videochamada. 

O ambiente como parte da estratégia 

Na Zeta Office, especializada em marcenaria corporativa sob medida, a demanda por projetos personalizados cresceu de forma expressiva. Pablo Gimenes, diretor comercial da empresa, aponta um aumento na procura por mobiliários diferenciados desde 2024. “O ambiente passa a ser parte de uma estratégia da empresa”, afirma Gimenes. O que impulsiona esse crescimento é a personalização. Em vez de soluções de catálogo, os projetos consideram a identidade da empresa, o perfil das equipes e o tipo de trabalho desenvolvido. Formas orgânicas que fogem do ângulo reto, materiais naturais, paletas desenvolvidas especificamente para cada espaço. O resultado são ambientes que dificilmente poderiam pertencer a outra empresa. “O ambiente agora busca conectar as pessoas à natureza e promover engajamento através de espaços de descompressão e formas orgânicas”, diz Gimenes. A biofilia, que nada mais é do que a incorporação de elementos naturais ao ambiente construído, deixou de ser tendência de revista e entrou de vez nos projetos corporativos de alto padrão. 

Zeta Office | FOTO: Divulgação

Design, saúde mental e a NR-1 

Em 2024, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora que gerencia os riscos ocupacionais) ampliou a responsabilidade das empresas em relação à saúde psicossocial dos colaboradores. As novas exigências entraram em vigor em maio de 2026. Na prática, significa que o ambiente físico de trabalho passou a ter implicações legais, e não apenas éticas, no bem-estar das equipes. Marcos Nogueira, CEO da Ampia Design, vê esse movimento como um acelerador. Para ele, a mudança legislativa coloca em termos objetivos algo que os melhores projetos corporativos já praticavam: “A empresa vai ter que cada vez mais cuidar do colaborador. Se o ambiente é bacana, se o ambiente é agradável… ou se ele trabalha num lugar enclausurado e que sequer verá o dia passar”, diz Nogueira. Iluminação natural, ventilação adequada, presença de vegetação e conforto acústico deixam de ser diferenciais e passam a integrar o briefing básico dos projetos. Em plantas abertas, ainda predominantes nos escritórios contemporâneos, o ruído se tornou um problema real de produtividade. Cabines acústicas, divisórias de vidro com atenuação sonora e painéis absorventes integrados ao design das paredes respondem a essa demanda com cada vez mais sofisticação. O espaço físico deixa de ser neutro. Ele passa a influenciar ativamente o desempenho, o humor e a permanência das pessoas dentro da empresa. 

Alta marcenaria: o mobiliário sob medida 

Gustavo Duarte, CEO da Tecnoflex, registrou um crescimento de 15% na linha premium da empresa desde o início de 2024. Segundo diz, o perfil dos pedidos mudou: mais integração com o projeto arquitetônico, mais tempo de desenvolvimento, materiais selecionados com critério. “Há uma busca por conforto acústico, tecnologias como carregamento por indução e o uso de madeira natural em salas de conselho. Produtos mais ecológicos, plantas, madeira natural, tudo isso os arquitetos estão trazendo para dentro dos projetos”, afirma Duarte. Como exemplo, ele cita um dos produtos que entregou recentemente para a sede de um banco em São Paulo, uma mesa de reunião desenvolvida em madeira natural com acabamento em couro, com valor próximo de R$ 98 mil por peça. O movimento também pode ser medido pelos lançamentos das marcas. A americana Herman Miller, por exemplo, lançou no segundo semestre do ano passado uma nova versão da poltrona Eames Lounge e Otomana, criada por Charles e Ray Eames, e que chegou ao mercado por quase R$ 70 mil. É peça bem conhecida nos escritórios de alguns dos mais altos executivos da Faria Lima. Os exemplos não são exceções. Atualmente, virou um tipo de solução que cresce em demanda à medida que as empresas encaram o mobiliário como parte do projeto, não como acessório. E, claro, sem deixar o luxo e conforto de lado. A tecnologia entra nessa equação de forma cada vez mais discreta e integrada. Carregamento por indução embutido no tampo, gestão de cabos invisível, iluminação integrada, são recursos que “somem” à vista no projeto mas fazem diferença no uso. 

FOTO: Divulgação

A dança das lajes e o crescimento do setor 

Há um efeito de cadeia que mantém o mercado aquecido além da demanda direta. Marcos Nogueira chama de “dança das lajes”: quando uma empresa grande muda de endereço, outras se movem junto, ocupando assim os espaços deixados, reformando e atualizando. “Quando um muda, às vezes são três que estão mudando”, diz. Esse ciclo contínuo sustenta um mercado que já não depende apenas de novos projetos. Empresas que ficam no mesmo endereço também investem para não ficar para trás. O novo padrão do mercado cria pressão sobre todos. Para 2026, a Ampia Design projeta crescimento de pelo menos 20%. Os demais players do setor compartilham o otimismo. A combinação de flight to quality, NR-1 e a necessidade permanente de atrair (além de reter) talentos cria um cenário em que o investimento em ambiente corporativo de alto padrão passa a ser estrutural. 

O horizonte e a demanda 

Pelos números das consultorias imobiliárias, essa demanda só tende a crescer. Dados da consultoria internacional JLL sobre os escritórios de alto padrão em São Paulo indicam que o primeiro trimestre de 2026 registrou uma taxa de vacância (espaços não alugados) de 13,4%, a menor dos últimos 14 anos. Em dois anos, os preços dos aluguéis subiram 24,3%. Faria Lima, Itaim, Paulista e Vila Olímpia já não têm espaços grandes para receber novos escritórios. Aqueles que estão em construção e serão entregues neste ano já estão pré-locados. É o caso, por exemplo, do Cyrela Corporate Pininfarina, na rua Oscar Freire, que será ocupado em parte pelo Nubank e pela própria Cyrela, que mudará sua sede da Paulista para Pinheiros. Há uma relação simbiótica entre o aquecimento do mercado imobiliário corporativo e o mobiliário de escritório para esse público. Pelos números do setor e exemplos das empresas, o horizonte que se desenha para as empresas que fornecem cadeiras, mesas e demais peças para esses ambientes é mais do que promissor.

Flexform | FOTO: Divulgação Flexform/ Tandi Verissimo

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POR Clayton Freitas
FOTO DESTAQUE: Divulgação Flexform/ Tandi Verissimo
FOTOS: Divulgação e Divulgação Flexform/ Tandi Verissimo

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