Em um cenário gastronômico cada vez mais orientado por tendências visuais, um restaurante de bairro aposta no caminho oposto: tradição, acolhimento e comida com identidade. À frente da casa está Miguel Bettencourt, herdeiro de uma história construída na culinária portuguesa, que hoje imprime sua própria visão ao negócio da família. Por décadas, a gastronomia portuguesa em São Paulo foi construída sobre pilares discretos: disciplina e uma certa obstinação em fazer bem-feito todos os dias, sem espetáculo. Não é o tipo de cozinha que pede aplauso. É a que conquista pela repetição precisa. No bairro de Moema, essa lógica ainda resiste. E é ali que o Chiado encontra seu lugar, como uma continuação adaptada ao presente.
Em meio às panelas
Filho de um português que chegou ao Brasil com 26 anos, “com 200 dólares no bolso e um sonho na cabeça”, Miguel Bettencourt cresceu entre salões de restaurantes e bastidores de cozinhas. O pai, Carlos Bettencourt, começou a jornada no Brasil lavando piscinas em Foz do Iguaçu, e consolidou seu nome em São Paulo, onde abriu o a Bela Sintra, a referência quando se fala em alta gastronomia portuguesa no país. Miguel não fala como quem constrói uma narrativa. Ele fala como quem viveu dentro dela. “Eu cresci no restaurante. A gente chegava e ia embora junto.” Então surgiu o Chiado, há 13 anos, como uma extensão mais acessível do a Bela Sintra.

FOTO: Daniel Cancini
Uma pitada a mais
O paladar se formou em viagens frequentes a Portugal. Bacalhau servido em travessas simples, restaurantes sem pretensão estética, receitas passadas de geração em geração, feitas por mãos treinadas no ofício diário da boa comida. A simplicidade dos bons ingredientes moldou não só seu gosto, mas também sua leitura de mercado. No Brasil, a tradição precisa ser ajustada. O sal aumenta, a rusticidade suaviza, certos pratos simplesmente não atravessam a fronteira cultural. “O cozido português, por exemplo, não funciona aqui. É pesado demais para o paladar nacional.” A ideia era simples e, ao mesmo tempo, estratégica: trazer a gastronomia portuguesa para um ambiente cotidiano e íntimo, mais próximo da vida real do bairro. O Chiado encontrou esse equilíbrio.
Entre Portugal e São Paulo
A cozinha do Chiado vive nesse espaço intermediário. Nem totalmente portuguesa. Nem completamente brasileira. Ela é adaptada, traduzida e carregada de tradição. Ao mesmo tempo, novas criações surgem a partir de memórias. Como o filé entre pimentas e batatas, inspirado em um restaurante no Algarve. Também entre as novidades do cardápio, estão opções mais leves, como o sal – mão com molho de limão-siciliano e legumes grelhados, além de experiências gastronômicas aos sábados, quando o preparo do bacalhau é feito ao vivo, diante dos clientes. Muitas vezes as receitas originais exigem ajustes. “A pimenta por aqui é mais forte”. Mas o resultado permanece fiel ao espírito, e esse é o maior acerto do Chiado: saber traduzir um sentimento em paladar.
FOTO: Daniel Cancini
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FOTOS: Daniel Cancini