Em meio a edifícios tombados e ruas que guardam a memória da cidade, novos endereços culturais e gastronômicos vêm redesenhando a paisagem e atraindo um público jovem, criativo e noturno ao centro de São Paulo. Locais como Formosa Hi-Fi, Lágrima Bar, Matiz e Brisa do Barú se tornaram símbolos desse momento. Cada um, à sua maneira, combina boa gastronomia, programação cultural e uma atmosfera que valoriza a arquitetura histórica e o convívio urbano. O fenômeno não é novo – e tampouco linear. “Há 20 anos se debate o Centro, onde há ciclos de ascensão e queda”, lembra o empresário Facundo Guerra, figura central na transformação da região. Responsável por marcos da reocupação cultural de áreas históricas da cidade, como Riviera Bar, Mirante 9 de Julho, Cine Joia e Bar dos Arcos, agora ele encabeça um dos símbolos dessa retomada: o Formosa Hi-Fi. Instalado na antiga Galeria Formosa, passagem que interliga o Shopping Light, o Theatro Municipal e a Praça Ramos de Azevedo, o espaço foi aberto em uma parceria de Facundo com o ex-secretário municipal de Cultura Alê Youssef, fundador da casa de shows Studio SP, e com Ale Natacci, cofundador com Youssef do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. A inspiração veio dos listening bars japoneses – locais que priorizam a escuta atenta da música, com equipamentos de som analógicos e curadoria cuidadosa de discos de vinil. “O projeto estava engavetado havia dez anos”, conta Facundo. “Quando surgiu a chance de ocupar a Galeria Formosa, tudo fez sentido.” Segundo ele, o conceito dos listening bars vem ganhando o mundo por oferecer uma experiência mais profunda, longe da pressa dos streamings e das playlists algorítmicas. O ambiente caprichado e a carta de drinques completam a experiência.

FOTO: Divulgação Formosa Hi-Fi/ Dandara Bettino
No Edifício Renata, outro endereço vem conquistando público fiel: o Lágrima Bar que, assim como o Formosa, investe pesado na qualidade sonora. “Queríamos um bar em que realmente gostássemos de beber, mais intimista e com boa coquetelaria”, explica o sócio Rafael Capobianco. “A música veio para coroar esse projeto.” Ele pondera, no entanto, que “definir o Lágrima como um ‘listening bar’ limita a casa”. Capobianco também esteve por trás do Caracol, o primeiro bar do tipo na cidade, mas diz que o Lágrima vai além: faz parte de um conjunto de experiências que ocupam o tradicional Edifício Renata, projetado por Oswaldo Bratke em 1956 e tombado em 2012. “O Lágrima completa uma ideia de hospitalidade que veio junto com a requalificação do prédio. Ali também funcionam café, livraria, apartamentos para moradia temporária e, em 2026, será aberta uma brasserie. São experiências para o dia todo, conectadas entre si.” A combinação de música no vinil, coquetelaria e arquitetura histórica também é atrativo de outras casas pertinho dali, como o Dōmo e o Matiz, abertos há dois anos, antes mesmo do boom atual. O primeiro, intimista, está instalado onde antes funcionava uma antiga sapataria dos anos 50 e tem cozinha caprichada. Já o Matiz, mais festivo e com DJs, ocupa o terraço de um edifício art déco na Rua Martins Fontes e é um dos endereços preferidos de quem redescobriu o Centro à noite. Capobianco reconhece, no entanto, que o renascimento da região ainda enfrenta desafios. “Iniciativas como a ‘lei do retrofit’ ajudaram, mas ainda é desafiador investir nesse pedaço da capital”, afirma. Ele se refere ao programa Requalifica Centro, que oferece incentivos fiscais e financeiros, como isenção de IPTU por três anos e redução do ISS para obras de retrofit. Mais ações recentes ajudaram a mudar o modo como os paulistanos se relacionam com o espaço público. É o caso do projeto Ocupa Rua, idealizado em 2020, em plena pandemia, pelo escritório Metro Arquitetos e pela jornalista Alexandra Forbes, com apoio da Prefeitura. O projeto transformou calçadas e trechos de vias públicas em áreas externas para bares e restaurantes, permitindo a instalação de terraços ajardinados e mesas ao ar livre. A iniciativa começou como um projeto-piloto e rapidamente ganhou destaque ao devolver vida às ruas – com destaque para A Casa do Porco Bar, na República, o primeiro a aderir.
FOTO: Divulgação Lágrima Bar
Gastronomia também em alta
“Desde que cheguei a São Paulo, o Centro é meu lugar favorito”, diz o chef colombiano Dagoberto Torres. “É o lugar onde me perco com facilidade e felicidade.” No segundo semestre de 2025, ele apostou suas fichas no Brisa do Barú aos pés do Copan – um projeto que, segundo ele, ficou maturando por um bom tempo. “Há quatro anos começamos a pensar realmente em vir para a região.” Conhecido pelo Barú Marisqueria, Dagoberto agora comanda um balcão de apenas doze lugares que abraça a grelha, em um ambiente pensado para a troca e a experiência sensorial. “Com esse restaurante, queríamos nos conectar à energia do lugar, com sua pluralidade e com esse caos organizado”, conta o chef. Outro endereço que simboliza o vigor da região é a nova unidade do Mundo Pão do Olivier, do chef e apresentador Olivier Anquier, que voltou a funcionar no Centro com uma unidade mais vistosa, no cruzamento das avenidas Ipiranga e São Luís. Esses novos polos culturais e gastronômicos não apenas atraem um público diferente – também transformam a percepção sobre o lugar. Entre agulhas que tocam LPs e taças que tilintam sob a luz amena, a São Paulo noturna encontra no coração histórico da cidade seu palco mais autêntico: repaginado, vibrante e em sintonia fina com o próprio passado. “Para quem ainda tem receio do Centro, eu digo que regiões como a Paulista e os Jardins são mais perigosas. E os números mostram isso”, finaliza Facundo.
FOTO: Divulgação Mundo Pão do Olivier
Formosa Hi-Fi – Rua Coronel Xavier Toledo, 23 (Galeria Formosa)
Lágrima Bar- Rua Major Sertório, 95
Matiz Bar – Rua Martins Fontes, 91, 11º andar
Dōmo Bar – Rua Major Sertório, 452 Brisa do Barú. Avenida Ipiranga, 200 (Edifício Copan) Mundo Pão do Olivier- Avenida São Luís, 29
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POR Fábio Galib
FOTO DESTAQUE: Divulgação Formosa Hi-Fi/ Dandara Bettino
FOTOS: Divulgação