Há 30 anos,a moda brasileira iniciava uma nova história e ganhava contornos estratégicos de imagem, divulgação dos estilistas e, claro, o DNA Made in Brasil passava a ser prospectado para o mundo. Nascia a São Paulo Fashion Week, uma semana com desfiles e eventos externos voltados para a apresentação das novas coleções para o público e compradores.“Quando comecei a traçar a semana de moda, eu queria fazer algo com a nossa identidade, com cara de pertencimento. O desafio não era fazer uma semana de moda como em Paris, Milão, Londres ou Nova Iorque. Era criar algo que, desde o início, pudesse conectar todo mundo a um sentimento de comunidade. E isso ajudou muito a construir um projeto de moda, de economia criativa, que virou referência em todo mundo”, conta Paulo Borges, diretor criativo e idealizador da SPFW. Polo de disseminação cultural, tendências de comportamento e moda, a SPFW foi além das passarelas nestas três décadas e virou referência de inovação, trazendo para dentro do evento tudo o que estava começando a fomentar na sociedade.“O São Paulo Fashion Week foi o primeiro evento a falar sobre compensação de emissão de carbono e sustentabilidade. E isso há mais de 20 anos”, conta.
Crescendo de forma coletiva, o evento foi responsável por organizar o calendário da moda nacional e contribuir para a sua cadeia produtiva, alinhando de forma estratégica a produção das peças, apresentação aos compradores e divulgação ao público. “O mercado foi se profissionalizando ao longo desse tempo, desde as camareiras, estilistas, produtores, modelos, patrocinadores, tecelagens, jornalistas, agências, indústrias e até técnicos”, ressalta. Influência na comunicação, o mercado da publicidade também foi se alinhando com as semanas de moda, e as modelos da passarela logo apareceram nos filmes publicitários e campanhas. “Quando começamos a falar de diversidade nas passarelas e colocamos isso em pauta, passando a exigir das marcas, o mercado como um todo se alinhou. Isso é o resultado de olharmos para frente”, resume.

FOTO: Divulgação/ Marcelo Soubhia @agfotosite
Tudo começou em 1995 quando Paulo Borges, ao lado da empresária Cristiana Arcangeli, proprietária da marca de cosméticos Phytoervas, fez o primeiro grande evento de moda no país, o Phytoervas Fashion, realizado na Vila Olímpia. A passarela foi palco para o desfile de três estilistas que começavam a despontar nacionalmente e internacionalmente – Alexandre Herchcovitch, Walter Rodrigues e Sonia Maalouli. No ano seguinte,o evento cresceu, ganhou uma semana de moda e virou o Morumbi Fashion Week. Em 2011, tornou-se a SPFW da forma que conhecemos hoje, com desfiles acontecendo por lugares icônicos de São Paulo, como a Bienal do Ibirapuera, a casa da moda brasileira – lugar que ajudou a prospectar estilistas e profissionais para o mundo inteiro, como as supermodelos Gisele Bundchen, Alessandra Ambrósio, Isabeli Fontana, Ana Hickmann e outras tantas.
Ao longo dos 30 anos, o evento passou por mudanças fundamentais, como a chegada da internet e redes sociais, o que mudou o planejamento tanto dos desfiles quanto das coleções. “Quando a internet chegou, ela era apenas mais uma ferramenta de comunicação. Lembro bem de uma edição da São Paulo Fashion Week em que montamos um espaço com trinta mesas conectadas, onde as pessoas podiam sentar, logar e escrever. Tudo o que produziam era publicado. A Camila Coutinho conta, no livro dela, que foi nesse momento que percebeu que poderia construir algo nesse formato. Foi assim que nasceram as blogueiras. A partir dali – e um pouco depois – começou a se consolidar essa lógica das redes: todo mundo passou a ser referência, notícia, veículo e creator.
FOTO: Divulgação/ Marcelo Soubhia @agfotosite
Esse movimento representou uma grande virada para a moda, especialmente pela expansão da velocidade da informação”, relembra. Durante a pandemia, a SPFW foi o primeiro grande evento a ser cancelado diante da emergência global. “Acho que a pandemia foi um fator de ruptura concreta – não apenas ideológica ou futurista –, mas algo que fez as pessoas caírem na real e entenderem que o mundo havia mudado. A moda entrou de um jeito e saiu de outro”, resume.
Paulo conta que a decisão de cancelar o evento foi tomada de forma cautelosa, mas sempre priorizando primeiro o público e as pessoas,e depois o mercado.“O meu namorado morou na China e, quando viu aquele monte de gente de máscara, disse que se tratava de uma epidemia muito urgente. Começamos a olhar tudo mais atentamente e a perceber que a situação estava saindo do controle. Fiz uma reunião na empresa e falei: ‘Não dá para fazer esse SPFW, não tem a menor condição, isso vai dar problema’. Eu pensava: é a SPFW, são pessoas, não é um filme –, mas não haverá condições de estarem juntas. Pediram para que eu não entrasse em pânico e aguardasse uma semana, mas respondi: ‘Não vamos esperar nada. Hoje mesmo vou avisar que não vai acontecer’. Era início de março, o evento seria em abril. Era uma questão humanitária, de proteção às pessoas, a todos nós”, relembra. O evento foi oficialmente cancelado em 12 de março, e o governo declarou a pandemia no dia 24 do mesmo mês.
FOTO: Divulgação/ Danilo Grimaldi
Paulo já soma 42 anos dedicados à moda, uma vida movida pela paixão que serviu de combustível para superar os desafios de um mercado inserido em um país marcado por altos e baixos econômicos, políticos e sociais. “Demorei bastante tempo para entender que o meu papel era dar um sentido coletivo à moda nacional. Não tenho marca de roupa, não tenho loja, não venho de uma família de confecção.Sou integralmente uma pessoa apaixonada por moda, com um objetivo – não é um sonho, mas uma meta – de realizar algo que eu via ter potencial de acontecer”, afirma.
A SPFW caminha para o futuro sem perder o vínculo com sua história. Para ele, mais do que estar atento ao presente, o essencial é não se deter em análises, mas seguir em movimento.“Somos uma grande incubadora de novidades.Quando olhamos para trás,vemos que muita gente voou,e seguimos abrindo espaço para quem chega. Uma semana de moda não pode ficar parada no divã: ela tem que andar, seguir em frente. E, nesse processo, vai errar, vai acertar, vai precisar de remédios, vai se curar e vai se levantar”, finaliza.
FOTO: Divulgação/ Marcelo Soubhia @agfotosite
________
Por Mariana Gallo
FOTO DESTAQUE: Divulgação/ Gustavo Scatena
FOTOS: Divulgação/ Marcelo Soubhia @agfotosite e Divulgação/ Danilo Grimaldi