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República Italiana completa 80 anos: um olhar sobre sua história

Neste 2026, mais exatamente no dia dois de junho, a República Italiana comemora seu aniversário de 80 anos. A Itália, como a conhecemos hoje, uma democracia, calcada em suas tradições, com suas províncias e comunas, tem menos de um século de existência, mas essa cronologia é uma jornada longa, que vai desde o berço do maior império da antiguidade a um mosaico de cidades-estados renascentistas, até a sua unificação no século 19, formando o mapa atual. Reconhecida por seu papel fundamental no desenvolvimento dos pilares da cultura ocidental, a Itália escreveu ao longo do tempo um legado sem igual no direito, na arte, gastronomia, arquitetura, ciência e literatura.

Ciao, Guerra, Arrivederci, Monarquia

Mas é com o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que esse percurso democrático começa. Com o referendo realizado em 1946, os eleitores italianos escolhem o fim da monarquia e a instauração de uma república. Até então, a Itália era um reino sob o comando da Casa de Saboia, dinastia que governava desde a unificação, em 1861. Em 1922, a chegada de Benito Mussolini ao poder e a consolidação do regime fascista, que levou o país a integrar o Eixo durante a Segunda Guerra Mundial, enfraqueceram a posição da monarquia e criou um imenso descontentamento popular, especialmente pela cumplicidade com o regime fascista e com as práticas do Duce. Na tentativa de preservar a monarquia, em maio de 1946, o rei Vítor Emanuel III abdicou em favor de seu filho, Humberto II. No entanto, a medida não foi suficiente para conter a insatisfação popular. Derrotada, e com o então líder fascista Benito Mussolini morto, a Itália entra em convulsão. Os escombros deixados pelos conflitos eram vistos por todos os lados. No pós-guerra, a Itália enfrentava não só uma destruição econômica, mas também uma imensa instabilidade política. 

FOTO: Adobe Stock

Enfim uma República

Com o fim da guerra, o país vê crescer duas forças políticas dissonantes: a Democracia-Cristã e o Partido Comunista Italiano. Para além dos confrontos ideológicos, houve também convergências, e o resultado foi a ampliação dos direitos dos trabalhadores, o fortalecimento da unidade nacional, além da inserção do país no contexto europeu. Esse período de transição de poder foi democrático e estabeleceu uma nova Constituição em 1948. Entre embates e consensos, os dois polos políticos foram capazes de construir acordos e promover profundas transformações culturais que moldaram a Itália ao longo das mais de três décadas do pós-guerra. Com apoio do Plano Marshall dos Estados Unidos, o país inicia sua reconstrução. Em junho de 1946, além do referendo para definir a nova forma de governo da Itália, ocorreram eleições para a Assembleia Constituinte. Algumas áreas ainda sob ocupação dos aliados, como Zara e Bolzano, não participaram. O resultado oficial, anunciado em 10 de junho, apontou mais de doze milhões de votos a favor da república, cerca de 54% dos votos válidos. Diante do resultado, Humberto II – que governou por apenas 33 dias e ficou conhecido como o “Rei de Maio” – deixou o país em 13 de junho de 1946, partindo para Portugal. Ele transferiu seus poderes ao primeiro-ministro Alcide De Gasperi, conduzindo a transição para o novo regime.

Uma Constituição para chamar de nossa

Em 1º de janeiro de 1948, com a promulgação da nova Constituição, Enrico De Nicola assumiu como o primeiro presidente da República Italiana, consolidando oficialmente o retorno de um regime republicano unificado na península – algo que não ocorria desde o fim da República Romana, em 27 a.C. A nova Constituição também determinava que nenhum membro masculino da Casa de Saboia poderia residir na Itália; regra revogada em 2002. Nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1950, a Itália passou por uma acelerada reconstrução e ascensão econômica, se tornando uma das principais potências industriais do mundo. O país é membro fundador do processo de integração europeia, além de integrar a OTAN e, posteriormente, o G7. Assim, da velha Roma, que dizem ter nascido das mãos de Rômulo e Remo, até a Itália de hoje, coberta de marcas da história e vielas que nunca perdem o encanto, a trajetória é longa. Passa por mitos, império, por quedas duras e guerras que deixaram cicatrizes. Passa por ruínas e por mãos que reconstruíram pedra sobre pedra. Nada foi simples. Nada foi curto. A república italiana nasceu de uma derrota militar e de uma decisão civil. O que veio depois – crescimento, estabilidade, consolidação – pertence à história em curso. O voto de 1946 permanece como seu ponto de partida.

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POR  Viviane Auerbach
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