Conhecidas internacionalmente por sua pesquisa com a cera vegetal e por instalações de forte impacto sensorial, as artistas cariocas Irmãs Gelli realizam sua primeira exposição individual em São Paulo, “Leva tempo, mas vai dar tempo”, na Casa Seva, espaço dedicado a projetos experimentais e práticas comprometidas com a sustentabilidade dentro da Vila Modernista, nos Jardins. Sob a curadoria de Catalina Bergues, também curadora do Instituto Tomie Ohtake, a mostra apresenta cerca de 20 obras inéditas, entre trabalhos de grande escala, peças cinéticas e uma instalação performática que dá nome à exposição. A mostra tem entrada gratuita e ficará em cartaz até 18 de abril.
Pensada e produzida ao longo de todo o ano de 2025, “Leva tempo, mas vai dar tempo” marca um momento importante na trajetória da dupla, formada por Alice e Gabi Gelli, artistas há mais de sete anos, e que há cinco desenvolvem juntas uma pesquisa artística centrada na materialidade do tempo, na experiência do corpo e na criação de espaços de encontro em meio à virtualidade contemporânea.

FOTO: Divulgação/ Marcela Cure
Para as artistas, o título faz referência tanto ao tempo de feitura das próprias obras, em um processo demorado e de muitas camadas; assim como a um convite à presença e contemplação para o público que visitará a exposição, em meio à pressa do mundo. “O tempo não aparece aqui como tema, mas como parte da própria matéria. Os acúmulos, os mergulhos sucessivos e a espera implicados no trabalho com a cera tornam visíveis camadas de um tempo que se deposita de forma processual. Ao convidarem o público a observar e interagir com esses vestígios, as artistas deslocam a ideia de obra acabada e fixa no tempo: ao contrário, trata-se de trabalhos que seguem se transformando na presença dos visitantes e na ação contínua das próprias artistas”, declara a curadora.
As obras feitas majoritariamente em cera vegetal – material que se tornou o principal suporte criativo da dupla – revelam camadas translúcidas sobrepostas, construídas por meio de sucessivos mergulhos em material líquido, um procedimento que exige espera, repetição e atenção aos ritmos do próprio material. O resultado são trabalhos em grande escala que evocam profundidade, suspensão e transformação contínua pela passagem do tempo, em diálogo com referências da natureza.
FOTO: Divulgação/ Marcela Cure
Como a sustentabilidade é um dos eixos estruturantes do trabalho da dupla, as artistas fazem questão de que ela seja refletida também no processo de criação, e não apenas como discurso: as matérias-primas, como a cera vegetal Ecomix (com menos parafina), o plástico de faróis de carros reciclado e desenvolvido em parceria com o projeto Arte 8 Reciclagem, e a madeira de demolição, são recicláveis, reutilizáveis e constantemente retrabalhados no ateliê, permitindo uma criação baseada na experimentação contínua. “Ao longo dos anos o nosso trabalho foi crescendo em escala, e pensar obras de grandes dimensões com materiais sustentáveis faz muito mais sentido, como quando criamos uma obra de 7 metros de comprimento feita de 45 kg de plástico reciclado, o equivalente ao consumo médio de plástico de 45 pessoas em 1 mês. Esse plástico deixa de ser lixo e passa a ser obra”, comenta Gabi.
Para a primeira individual na capital paulista, as Gelli criaram uma instalação performática de aproximadamente meia tonelada de cera, inspirada na formação de estalactites e estalagmites – estruturas rochosas encontradas em cavernas que levam milhares de anos para se formarem. Assim como esses fenômenos naturais, a obra será construída em camadas, ao longo do período expositivo, em sessões abertas ao público, que será convidado a acompanhar sua transformação em tempo real. Criada em grande escala, a instalação exige que o visitante circule ao seu redor, reforçando a dimensão e o impacto corporal e experiencial do trabalho das irmãs.
FOTO: Divulgação/ Marcela Cure
Outra novidade são as obras cinéticas, em que as partes se deslocam horizontalmente. O convite à interação busca ampliar o diálogo entre tempo, matéria e percepção de espaço. “Aprendemos desde crianças a colocar as mãos para trás em exposições de arte. Isso, por si só, já impõe um distanciamento físico. Mas quando você convida as pessoas a tocarem o material, a adentrar uma instalação, a construir coletivamente, é uma experiência que ativa todos os sentidos. Você sai mais calmo do que entrou, consegue perceber o impacto daquela obra no seu corpo”, afirma Alice.
A Casa Seva dialoga diretamente com essa convergência ao se afirmar como um espaço de encontro entre arte, processos ecológicos e relações sustentáveis. Carolina Pileggi, representante da Casa Seva, comenta que o título da mostra lhe desperta reflexões sobre o tempo da natureza e o quanto a humanidade está desconectada disso. “É essa reflexão sobre o tempo certo das coisas – esse é o tempo que leva na loucura do universo digital, ou esse é o tempo que levaria na natureza?”, questiona.
FOTO: Divulgação/ Marcela Cure
Exposição “Leva tempo, mas vai dar tempo” – Irmãs Gelli
Até 18 de abril
De terça a sexta, das 11h às 18h, e sábados, das 11h às 15h
Casa Seva – Alameda Lorena, 1257, Casa 1 – Vila Modernista
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FOTOS: Divulgação/ Marcela Cure