Há algo de profundamente italiano em transformar um número frio em poesia líquida. Em 2025, enquanto a Itália reconquistava silenciosamente a liderança mundial na produção de vinhos — com 47,4 milhões de hectolitros produzidos e alta de 7,5% em relação ao ano anterior —, um movimento mais sutil ganhava corpo nas adegas, restaurantes e cantinas do Brasil: o consumidor brasileiro estava aprendendo a beber melhor. E a Itália, mestre da arte de envelhecer com elegância, decidiu que era hora de ocupar esse novo lugar à mesa.
Não por acaso Bento Gonçalves (RS) recebeu uma das mais expressivas representações italianas já organizadas em solo brasileiro. A Wine South America 2026, uma das principais feiras vitivinícolas da América Latina, abriga um Pavilhão Italiano de proporções inéditas: 32 empresas, 14 regiões representadas — do Alto Ádige à Sicília — e cerca de 300 rótulos que juntos somam mais de 62 milhões de garrafas anuais. A iniciativa é organizada pela ICE – Agência para a Promoção no Exterior e a Internacionalização das Empresas Italianas, que é o Departamento para a Promoção de Intercâmbios da Embaixada da Itália no Brasil, em parceria com a Veronafiere.

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Um país que voltou ao topo (e nunca saiu da memória afetiva)
Os números contam uma história de retomada. Após perder temporariamente o primeiro lugar mundial em 2024 — vítima de adversidades climáticas —, a Itália voltou a liderar o ranking global da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), à frente da França (35,9 milhões de hl) e da Espanha (29,4 milhões de hl). Mais do que isso: o país é também o maior exportador mundial, com 21,8% do total global, seguido por Espanha (20,1%), França (12,8%), Chile (7,8%) e Portugal (3,5%).
Se os Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido seguem como os destinos mais volumosos do vinho italiano, é o Brasil que aparece como uma das praças mais dinâmicas e promissoras dos próximos anos. Em 2025, as exportações italianas para o Brasil cresceram 13,9% em valor, saltando de US$ 43,2 milhões para US$ 49,2 milhões. O volume manteve-se praticamente estável — cerca de 9,8 milhões de litros —, mas o preço médio da garrafa italiana importada disparou: passou de US$ 3,98 para US$ 4,56, alta de 14,6%.
Esse detalhe revela o que talvez seja a notícia mais elegante de todo este movimento: o brasileiro está, enfim, premiumizando sua taça.
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A premiumização brasileira: menos quantidade, mais alma
Os dados do Ministério do Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o Brasil — maior importador de vinhos da América do Sul — adquiriu, em 2025, 165,1 milhões de litros da bebida, ao custo de US$ 558,7 milhões, alta de 6,8% sobre 2024. O país compra de cerca de 40 nações, e a Itália hoje ocupa a quinta posição em valor (atrás de Chile, Argentina, Portugal e França) e a quarta em volume.
Mas o que importa não é mais o tamanho da prateleira: é o que se serve nela. O consumidor brasileiro tem trocado os rótulos de entrada por opções de maior qualidade, abrindo-se a brancos minerais, espumantes de método clássico, rosés sofisticados e vinhos de origens menos óbvias — vulcânicos, de altitude, autóctones.
“O país europeu é o exemplo mais nítido desse movimento de premiumização”, observa Milena Del Grosso, diretora da Agência ICE no Brasil. “O volume de vinhos italianos exportado para o Brasil manteve-se estável, enquanto o faturamento cresce.”
A diretora reforça ainda o sentido estratégico da presença na feira: “Nossa expectativa é incentivar as conexões comerciais, fortalecer a imagem do vinho italiano com os compradores sul-americanos e apresentar ao mercado brasileiro uma oferta ainda mais diversa e qualificada”. E, sobre o impacto da parceria já em curso: “Os eventos promocionais organizados no Brasil em colaboração com a Veronafiere já estão produzindo resultados concretos na ampliação da participação italiana no mercado, ainda que reste muito a fazer nos próximos anos”.
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O Pavilhão Italiano: um retrato vivo da península
O Pavilhão organizado pela ICE foi pensado como uma travessia geográfica pelo mapa vitivinícola italiano. Estão lá vinícolas históricas e familiares, ao lado de grupos cooperativos que ultrapassam 20 milhões de garrafas por ano e pequenos produtores artesanais da ordem de 35 mil unidades anuais. Convivem no mesmo espaço Vêneto, Toscana, Campânia, Piemonte, Lombardia, Úmbria, Friuli Venezia Giulia, Marche, Sicília, Emília-Romagna, Abruzzo, Trentino-Alto Ádige e Puglia.
Estão presentes algumas das mais reverenciadas denominações DOC e DOCG do país — Chianti Classico, Valpolicella, Bardolino, Franciacorta, Prosecco, Verdicchio di Matelica, Marsala, Montefalco Sagrantino, Alto Adige — e um portfólio que mistura uvas autóctones (Sangiovese, Aglianico, Nero d’Avola, Glera, Corvina, Lambrusco, Grechetto, Pinot Noir, Gewürztraminer) e variedades internacionais. Tintos estruturados, brancos minerais, rosés, espumantes Método Clássico e Charmat, passitos e vinhos doces — do segmento de entrada ao ultrapremium.
Nomes como Guerrieri Rizzardi, vinícola histórica nascida da união de duas famílias nobres de Verona, com 90 hectares espalhados por Valpolicella, Bardolino e Soave; J. Hofstätter, fundada em 1907 no Alto Ádige e referência mundial em Pinot Nero de altitude; Bosio Family Estates, grupo familiar do Piemonte que entrega o icônico Barolo Riserva 10 Anni; Tudernum, primeira a vinificar de forma estruturada em Todi (Úmbria); e o Consorzio Vini Mantovani, com mais de 1.700 hectares e 22 produtores associados — todos compõem esse mosaico.
A vocação exportadora do grupo é robusta: mantêm presença consolidada nos Estados Unidos, Japão, Reino Unido, China, Suíça, Alemanha, Canadá, Bélgica, Holanda e países escandinavos. O Brasil, agora, é o capítulo a ser escrito.
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A diplomacia do brinde: a fala do embaixador
A leitura institucional do momento não poderia ser mais favorável. Em pronunciamento sobre a edição 2026, o Embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, foi categórico:
“A importante presença, pouco após a entrada em vigor do Acordo entre União Europeia e Mercosul, de empresas italianas na edição 2026 da Wine South America, em número até superior ao da edição do ano passado, que inaugurei com o Governador, confirma, também para o setor vitivinícola, a relevância que o Brasil tem no quadro do Plano de Ação para a exportação italiana nos mercados emergentes.”
A frase carrega uma chave geopolítica importante. O Acordo UE-Mercosul, agora em vias de produzir seus primeiros efeitos práticos, é visto pelas empresas italianas como oportunidade concreta para melhorar a competitividade, reduzir barreiras comerciais e facilitar o acesso ao mercado brasileiro. Para um país cujo vinho ainda enfrenta tarifas elevadas em comparação aos vizinhos sul-americanos do Brasil, a mudança pode reorganizar o tabuleiro em poucos anos.
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Ações colaterais: masterclasses, sensorialidade e o programa OpportunItaly
A presença italiana na feira vai muito além da degustação livre nos stands. Um dos pontos altos é a série de três masterclasses comandadas pelo sommelier Marcelo Vargas, eleito Melhor Sommelier Consultor do Brasil em 2023 pela revista Prazeres da Mesa, Mestre em Wine Management pela Università di Camerino e MBA pela ESPM em parceria com o Centro Italiano di Analisi Sensoriale.
A curadoria das três sessões funciona quase como um roteiro de viagem em três tempos: “Bolhas e Brancos da Itália: do Frescor à Estrutura” — onze rótulos, do delicado Moscato d’Asti DOCG 2025 da Cascina Pian d’Or ao impressionante Franciacorta DOCG Dosaggio Zero Millesimato 2022 da Pietraluce, passando pelo elegante Pinot Bianco Alto Adige DOC 2025 da J. Hofstätter e pelo mineral Friulano DOC Collio 2024 da Tenuta Stella. “Tintos Autóctones da Itália: Identidade e Território” — dez vinhos que costuram o sul ao norte: do Lambrusco PjaFöc Imperiale da Cantine Virgili Luigi ao Aglianico Sannio DOP Riserva “Cantari” 2018, passando pelo Schioppettino di Prepotto DOC da Vigna Petrussa e o Primitivo Gioia del Colle Riserva “Marpione” da Tenuta Viglione. “Ícones Italianos: Grandes Tintos de Guarda” — o ápice, com o lendário BEL COLLE Barolo Riserva 10 Anni 2015 da Bosio Family, o 3CRU Amarone della Valpolicella Classico DOCG 2021 da Guerrieri Rizzardi, o Chianti Classico DOCG Gran Selezione 2021 da La Sala del Torriano e o Montefalco Sagrantino DOCG 2020 da Tudernum.
A participação na Wine South America também integra os eventos estratégicos oficiais do programa OpportunItaly — iniciativa de aceleração empresarial promovida pela ICE e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional da Itália. O programa oferece serviços digitais de business matching, plataforma avançada de encontro entre oferta e demanda, e conteúdos dedicados aos principais setores estratégicos do Made in Italy.
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O que esperar dos próximos anos
O ciclo virtuoso parece estar montado. Há um país produtor de volta ao topo mundial. Há um mercado consumidor amadurecendo a passos largos, deixando o vinho-commodity para trás. Há um acordo internacional que promete suavizar barreiras tarifárias. E há, sobretudo, uma máquina diplomática e promocional bem azeitada, capaz de transformar feira em ponte, brinde em contrato, terroir em narrativa.
A Itália vendeu ao mundo, por séculos, um certo modo de viver em que o vinho não é bebida — é cerimônia, é vínculo, é tempo. Ao apostar agora no Brasil com a força que aposta, ela parece compreender que encontrou, deste lado do Atlântico, um interlocutor à altura: um país que, finalmente, começou a beber por prazer, não por hábito.
E nessa nova conversa, conduzida em garrafas que custam, em média, 14,6% mais caras do que há um ano, o que se brinda não é apenas o vinho. É o tempo, enfim, em que o brasileiro decidiu que merecia o melhor.
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