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Roberto Justus entra em mercado da construção civil com proposta revolucionária

Segundo Roberto Justus, é simples assim: “Quem industrializa ganha escala. Quem não industrializa perde mercado. A gente constrói como os próximos 50 anos vão construir. Eles ainda constroem como há 50 anos atrás. Os caras não evoluem. Ficam no passado, porque lá é onde eles dominam. O novo sempre assusta”. Estamos falando da técnica de construção que troca o tijolo e o martelo pelo aço e pelas máquinas de alta tecnologia – com inúmeras vantagens, dentro de um mercado trilionário. Com sua empresa SteelCorp, Justus já constrói sua liderança nesse novo segmento. 

Você acha que esse é o seu último negócio? 

Pedi à minha mulher para deixar eu me dedicar cinco anos a essa história. Vou para o terceiro ano agora. Mais dois nesse ritmo e já estarei com 73 anos. Depois, quero ir para o Conselho. E deixar meu sócio Daniel (Gispert) e a turma mais jovem tocar para frente. Hoje a gente está fazendo muita obra de PPP, Parceria Público-Privado. Escolas, creches, unidades de saúde, num mix do nosso sistema industrializado, ao máximo possível, com alvenaria. Ainda não dá para construir com 100% do nosso sistema. Mas, mesmo no mix, a gente faz obras hoje em 50%, 60% do tempo. Fizemos um estádio temporário com 13 mil lugares para o Red Bull Bragantino em sete meses e um terço do preço, enquanto levaria dois anos e meio a três para fazer do jeito convencional. Um detalhe: quando a reforma do novo estádio ficar pronto, o estádio provisório pode ser desmontado – e não quebrado a martelo se fosse de alvenaria – e o material usado em escolas, unidades de saúde, creches. 

Consagrado em publicidade, comunicação, investimentos, como você decidiu se dedicar a esse novo negócio? 

Vamos voltar um pouco na história. Eu  quei 38 anos na propaganda, na publicidade, na comunicação. De 1981 até 2015, quando vendi as empresas. Desses anos todos,  quei nos últimos 15 na liderança do mercado. Uma liderança difícil – imagine o que é competir num mercado com mitos como Nizan Guanaes e Washington Olivetto. Em 2004, entrei na televisão para comandar O Aprendiz, e  quei 16 anos na TV. Sempre falo, em tom de brincadeira, que, se eu fosse líder de qualquer outro setor que não a publicidade, onde se remuneram as agências com 20%, eu estaria na lista dos bilionários da Forbes, concorda comigo? 

FOTO: Daniel Cancini

Então você não está…? 

Não estou na Forbes. Tudo bem, não posso me queixar, mas não estou na Forbes. Mas por quê? Porque o grosso vai para os veículos. Se você parar para pensar na publicidade, o grosso do faturamento vai para… Eu compro espaço na Rede Globo Televisão,  eu fico com 20% – ela fica com 80%. Mas fui muito bem sucedido nesse setor. Fiz tudo o que eu quis fazer. Aprendi muita coisa, conheci muita gente e o know how é importantíssimo no crescimento de um empresário. A televisão me abriu também muitas portas. Voltando no tempo: quando vendi minhas empresas, eu tinha 60 anos. 

O que você fez nesse período? Assim que você vendeu, naqueles primeiros dias, deu uma sensação de alívio? 

Nos primeiros dias, pensei assim: estou morto, porque não vou conseguir ficar parado. Hoje eu estava mostrando minha fábrica para um grande cliente, que foi lá conhecer. Ele disse que ficou impressionado com minha energia, o jeito que eu vendo essa nova tecnologia, a vontade, o brilho nos olhos, com 71 anos. Tudo bem: sou muito bem conservado, graças a Deus. Casado com uma mulher de 38 e com uma filhinha de cinco, que é mais nova que meus netos. É muito bom ver crescer uma filha junto com meus netos, com meus filhos, porque eu posso fazer programas com todos eles. 

Você consegue juntar os cinco filhos? 

O tempo todo, com exceção da que mora nos Estados Unidos, mas vem muito para cá. Ela mora em Miami e o marido dela trabalha comigo na minha fábrica lá. Aliás, o único parente meu que trabalha comigo. Temos um sagrado jantar semanal na minha casa. E o fim de semana na fazenda, que eles amam. Minha mulher atual é muito bacana nesse sentido. Ela se dá muito bem com minhas ex-mulheres. A gente foi no aniversário de 50 anos da Ticiane Pinheiro sexta-feira. Minhas ex-mulheres estavam todas lá. Foi muito gostoso. Mães dos meus filhos são mães dos meus filhos para o resto da minha vida. 

FOTO: Divulgação

Voltando ao momento em que vendeu suas empresas: chegou a ficar parado algum tempo? 

Quase nada. No primeiro momento, eu falei: vou voltar no mercado… Fiquei muito triste, muito inseguro. E não vou  ficar parado. E minha mulher disse que, se eu ficar em casa, acabou o casamento. Televisão eu ainda faria por mais dois anos. E aí entrei no mercado  nanceiro. Primeiro montei um asset. Botei meu dinheiro lá para eles administrarem. Sempre fui um investidor quase profissional. Entendia bastante de investimento. Falei, quer saber? Vou entrar nisso. Aí entrei sócio do meu outro genro numa private equity. Segundo o Warren Buffett, o poder do homem está na agenda vazia, não na agenda cheia. Quando você tem o poder de decidir onde é mais útil, você tem um poder muito maior. Fui escravo de agenda durante 30 e tantos anos na propaganda, das 8 da manhã às 8 da noite. Mesmo se não quisesse, tinha que ir nas reuniões. Agora vou fazer diferente. Vou ficar só no Conselho dos negócios em que vou entrar e limitar minha participação onde acho que sou mais útil. Tem gente jovem muito melhor para fazer o trabalho do dia a dia. Mas mordi a língua aqui. Montei uma wealth, a Legend, que é uma empresa de administração de patrimônio. Começando eu mesmo, como primeiro cliente, depois entrou uma turma muito boa e hoje está com 35 bilhões de ativos sob gestão. Mas estou no Conselho, não no dia a dia, não trabalho lá. Entrei também num negócio de data centers, como sócio de uma empresa chamada Modular. Então, fui espalhando meus investimentos para esse tipo de negócios e falei: agora vou montar meu escritorinho de holding e administrar esse patrimônio. 

E como a construção industrializada entrou em sua vida? 

Em 2023, as pessoas ainda me procuravam bastante para falar de negócios, achando que sou um Midas, que eu não sou. Já toquei bastante coisa que foi ruim também – como qualquer empresário, você só tem que acertar mais do que erra, mas todo mundo erra. E aí, me procuraram para mostrar um negócio de construção industrializada. De cara, pensei: esse negócio parece interessante. Eu estava para reformar uma fazenda minha inteira, já estava muito antiga, e, quer saber, posso tentar com esse material deles. Estudei o mercado e estava com uma viagem para os Estados Unidos: fui conhecer as empresas de steel frame lá,  fiz um apanhado. Sempre falo o seguinte: para você analisar a viabilidade, a oportunidade, para você enxergar alguma coisa, você tem que ter um cheiro do que aconteceu com isso no mundo todo. Eu não conseguia entender como é que o Brasil, cuja construção civil representa 23% do PIB, e estamos falando em quase 2 trilhões de reais, ainda estava nos anos 60 no segmento da construção. Como é que não havia um metro quadrado de steel frame nesses prédios todos aqui? 

Essa tecnologia já tinha uma certa maturidade? 

Não é tão nova. Apenas que no Brasil  ficou restrita a pequenas empresas, pequenos players. Por vários motivos. E aí que me tornei um alto-falante interessante para esse mercado, um mercado que pode ser gigantesco. Para dar uma ideia para vocês, desse PIB de 2 trilhões, sabe quanto tem de Steel Frame? Um por cento – enquanto o setor de construção civil tem 25%. Oitocentos bilhões são as construções – de 3 a 4%, industrializadas. E por quê ainda tão pouco? Um dos fatores é a resistência a essa tecnologia. Vou dar um machado na sua mão. Vai derrubar a de alvenaria, não a minha. Ela tem um sistema. É mais resistente porque é aço dentro. Placa cimentícia, aço, um monte de coisa. Segunda coisa, preço. Durante muito tempo, o aço era mais caro do que a alvenaria, ainda é. Mas, quando entrei nisso aqui, a gente usava 55 quilos de aço por metro quadrado. Sabe quanto usa hoje? 14. Por quê? Engenharia, tecnologia, estudo, análise. Gente, eu gastei. Nós investimos muito dinheiro nesses três anos para aprender esse ofício. Como replicar nossa fábrica? Hoje você faz uma igualzinha com 50 milhões de reais. É bastante dinheiro, mas para uma fábrica não: são 8 milhões de dólares. Qualquer gringo vem aqui e monta essa fábrica em cinco meses. 

FOTO: Divulgação

Para chegar dos 55 aos 14 quilos, o investimento foi em material e engenharia de material? 

Temos uma área de P&D muito bem desenvolvida para fazer frente a esses custos e trouxemos o custo para a equivalência com o outro. Então hoje, se você chegar para mim e quiser fazer uma casa para você, não vou fazer, obviamente, porque eu preciso de repetição. Para ser competitivo, preciso de volume. Não posso customizar, parar uma linha. 

Vantagens da construção industrial sobre a alvenaria? 

Primeiro, metade do tempo. Vai levar dois anos e meio para você construir uma casa de tijolo, mas, comigo, você vai morar lá em nove meses. Tá bom pra você? Segundo: não tem patologia, não tem umidade, não tem trinca, não tem mofo, nunca na vida você vai ver uma mancha nessa parede, nunca. Para hospital é muito bom, para hotel, para tudo, porque a manutenção é baixa. Mais: nossa parede respira, não absorve calor. Você bota a mão na alvenaria no final da tarde, está quente, a nossa não está, ela não absorve calor. Temperatura ambiente, entre 22 e 23 graus, sempre, no calor e no inverno. Então não entra calor e não entra frio. 

Como tem sido sua relação com os governos? Muita encomenda? 

Fizemos recentemente 500 casas para o governo do Rio Grande do Sul, mas não negocio com o governo, só através de terceiros. Empresas privadas me contratam para fazer a obra para os governos. As casas que fiz no Sul foi através de uma ONG que as encomendou para doar às vítimas das enchentes, com dinheiro do Itaú. Já foram entregues duzentas e poucas. O governador do Rio Grande do Sul esteve numa dessas casas em dia de calor extremo. Ele entrou e disse: não é possível, parece ar-condicionado. A qualidade de vida nessas casas é sempre maior. Outra coisa: a acústica é 50% superior. Tenho umas 50 pessoas aí fora e vocês não estão ouvindo nenhum barulho. E olha que tem vidro ali. 

FOTO: Divulgação

Seu escritório já é construção industrial? 

Aqui era uma sala aberta. As paredes já existentes tive de manter. Mas as novas, eu fiz. A zona de conforto é evidente. 

Como essa tecnologia vai mexer com o mercado da construção? 

Existe um apagão gigantesco de mão de obra no Brasil, nos últimos dois anos, sobretudo na construção civil. Obras estão parando. Por quê? Os funcionários de uma obra, sobretudo os mais veteranos, preferem prestar outros tipos de serviço do que ficar carregando tijolo para ganhar mais. A idade média dos pedreiros subiu no Brasil. Não há sucessores. Como é que se faz num país que precisa tanto de infraestrutura, de obras, sem mão de obra? Na minha obra, sai o pedreiro e entra o montador, aí o cara topa. Até mulheres. Nós estamos treinando muita mulher. Nós montamos a Steel Academy, a nossa universidade, para criar a mão de obra e fazer frente às nossas demandas. Não adianta fabricar e depois não montar. Alguém tem que montar. 

Vocês têm concorrentes no mercado? 

Tem um grande concorrente chamado Brasil Ao Cubo, que faz coisas parecidas com a gente, mas não é igual. A Léia, do Grupo Tenda, em Minas, faz muitas casas de fábrica, mas de madeira. Eles chamam de Woodframe. A Tec Verde, em Curitiba, também é uma grande fábrica, mas também é madeira. Nossa fábrica é a maior do Brasil hoje. Somos o principal player nesses três anos. Somos muito procurados para fazer obras mais rápidas, mais limpas, mais eficientes. Mas não é fácil. Obra é uma coisa complexa. Fábrica é uma coisa complexa. O negócio é muito complexo, exige muito capital e muito investimento. O negócio não é brincadeira. 

FOTO: Divulgação

O seu entusiasmo inicial ao se lançar nesse novo segmento já compensou? 

Ainda não. Eu ainda não tirei meu investimento, vai demorar um pouco. Ainda estou na fase de investimento. Só para vocês entenderem, a zona de conforto que a engenharia tradicional tem é muito difícil quebrar. O novo sempre assusta. Mudança é uma palavra que assusta todo mundo. 

Qual é o futuro da SteelCorp? 

As obras especiais ainda fazem parte do nosso portfólio, mas o futuro da SteelCorp será escrito principalmente na construção de empreendimentos como casas populares que transformam o cenário e elevam o padrão de construção industrializada no Brasil. Abrimos um novo capítulo, a inauguração da fábrica SteelCorp A29. São 16 mil metros quadrados, 8 mil toneladas de aço e capacidade para montar até 10 mil casas. 

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POR Celso Arnaldo Araújo
FOTO DESTAQUE: Daniel Cancini
FOTOS: Daniel Cancini e Divulgação

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