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Escolas de negócios viram hubs de inovação, estratégia e networking de alto nível

Em um mundo que muda em ritmo acelerado, a experiência acumulada no topo das organizações deixou de ser garantia de futuro. O que se vê hoje é um movimento consistente de retorno às salas de aula por parte de quem já chegou lá. E, claro, de quem também quer chegar. “O sonho do brasileiro é empreender. É um dos principais projetos de vida no país”, afirma Edgard Barki, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV EAESP

“Cada vez mais, profissionais buscam autonomia,  flexibilidade e protagonismo na carreira e o empreendedorismo aparece como um caminho possível para isso. Além disso, o avanço da tecnologia reduziu barreiras de entrada para novos negócios, o que também estimula esse movimento”, afirma, por sua vez, Álvaro Schocair, fundador da Link School of Business. De olho nisso e percebendo essa mudança, as escolas de empreendedorismo e negócios reformularam seus programas para um público mais exigente, que não busca teoria básica, mas repertório para lidar com dilemas reais. 

Eles buscam atender a presidentes de empresas, conselheiros, executivos e empreendedores que voltam a estudar não por falta de bagagem, mas porque perceberam que o jogo mudou. Ou seja, ideia do executivo pronto perdeu força. Há quem diga que acabou a era da certeza de que um MBA de prestígio somado a uma trajetória sólida basta para sustentar decisões estratégicas. Modelos de negócio se transformam em poucos ciclos, tecnologias redesenham setores inteiros e aquilo que funcionava há cinco anos pode simplesmente não servir mais. 

Ibmec | FOTO: Divulgação

“O que tem crescido é a demanda por formações que preparem as pessoas para atuar em ambientes de alta incerteza, seja ao empreender, liderar uma transformação dentro de uma organização ou assumir uma cadeira em um conselho. Hoje, gestores e executivos lidam simultaneamente com a aceleração tecnológica, a inteligência artificial reconfigurando modelos de negócio e equipes cada vez mais complexas, diversas e multidisciplinares. Nesse contexto, cresce a procura por formações que aliem repertório técnico, capacidade analítica e preparo para decisões em contextos ambíguos”, afirma José Cláudio Securato, reitor da Saint Paul Escola de Negócios.

Nesse contexto, cada vez mais ganha protagonismo o conceito de lifelong learning (aprendizado durante a vida). Aprender continuamente deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica de permanência no topo. “CEOs, conselheiros e acionistas têm percebido que a velocidade das transformações tornou insuficiente apoiar-se apenas na experiência acumulada”, diz Securato.

O que leva um executivo experiente de volta à sala de aula não é a necessidade de aprender o que já domina. Esses profissionais querem discutir decisões concretas, testar ideias, ampliar o repertório e, principalmente, ganhar novas lentes para interpretar problemas complexos. 

FGV | FOTO: Divulgação

Eles não precisam que alguém lhes explique o que é uma reunião de conselho ou uma crise de gestão. O que buscam é confrontar os dilemas concretos que vivem no dia a dia com contribuições da academia, da neurociência, da filosofia. 

Novo modelo de estudo 

O modelo baseado em aulas expositivas, tais quais as fornecidas em cursos de graduação, por exemplo, e estudos de caso distantes da realidade cede espaço para uma dinâmica mais prática. O aprendizado parte do problema vivido pelo próprio aluno. A sala se transforma em um ambiente de troca, onde diferentes visões ajudam a construir caminhos possíveis. “As escolas focadas em empreendedorismo priorizam o aprendizado aplicado desde o primeiro dia. O alvo deixa de ser apenas entender como as empresas funcionam e passa a ser aprender fazendo”; diz Schocair, da Link. 

Aprendizado e troca 

Nesse contexto, o networking ganha um novo significado. Para esse público, quem está ao lado na sala importa tanto quanto o conteúdo apresentado. Executivos de diferentes setores, herdeiros em processo de sucessão, fundadores de startups e líderes em transição dividem o mesmo espaço. 

ESPM | FOTO: Divulgação

O resultado é um ambiente que funciona quase como um conselho consultivo informal. As discussões ganham profundidade porque partem de experiências reais. Ideias são testadas ali mesmo, em um espaço seguro, mas altamente qualificado. “Criamos um ambiente em que o networking deixa de ser apenas relacional e passa a ser parte ativa da experiência de aprendizado”, diz João Doria Neto, CEO Global do Lide. 

O Lide, em parceria com a ESPM, já percebeu esse anseio de empreendedores e executivos e, em março deste ano, lançaram o ESPM Lide Corporate Academy, a mais nova empreitada educacional voltada a empresários e executivos em fase de ascensão. 

Securato, da Saint Paul, afirma que a troca entre pares é tão valiosa quanto o conteúdo formal. “Estar em sala com outras lideranças lidando com desafios semelhantes produz um tipo de aprendizado que nenhum case fechado, com resposta pronta, consegue reproduzir”, diz. 

Saint Paul | FOTO: Divulgação

Ele lembra que o mundo contemporâneo não respeita fronteiras rígidas entre disciplinas. “Um líder que compreende apenas gestão, mas não entende de tecnologia, cultura, comportamento humano ou finanças, tende a errar. Por isso, temas como neurociência da decisão, sociologia das organizações, inteligência artificial e finanças são integrados ao currículo não como tópicos acessórios, mas como pilares centrais da formação”, explica. 

E, segundo Schocair, da Link, o que conecta esses diferentes perfis não é necessariamente a idade, mas o fato de que essas são pessoas movidas pelo interesse em criar, inovar e conquistar maior autonomia sobre suas trajetórias profissionais. 

Quem frequenta esses cursos e por qual motivo 

As escolas de negócios não têm como pretensão substituir a formação acadêmica tradicional. Até porque muitos que procuram esses cursos buscam justamente preencher lacunas que o ensino das faculdades não oferece por simplesmente ter outro foco. Outros até nunca frequentaram o ensino superior. 

Ibmec | FOTO: Divulgação

Com isso, esses cursos de empreendedorismo e negócios reúnem desde empreendedores que construíram negócios relevantes até pessoas com sólida formação acadêmica, além de jovens sucessores de empresas familiares e executivos experientes. 

Apesar de cada uma oferecer cursos e grades de ensino específicas, entre os constantes debates atuais estão questões como aplicar IA sem comprometer a cultura da empresa, a forma de que devem lidar com questões éticas e como separar modismos de transformação real. “O desafio não está apenas na adoção da tecnologia, mas em incorporá-la ao dia a dia das companhias com responsabilidade”, diz Doria Neto. 

Segundo Paula Esteban, diretora de Ensino do Ibmec, cerca de 25% dos alunos que se formam no Ibmec empreendem. “Há também um público crescente de sucessores em empresas familiares”, afirma Paula. Essa diversidade enriquece o ambiente de aprendizagem. Diferentes gerações, trajetórias e visões convivem no mesmo espaço, ampliando o repertório coletivo. 

ESPM | FOTO: Divulgação

É possível ensinar alguém a liderar ou empreender? 

A maior parte das competências que levam alguém a empreender e prosperar podem ser desenvolvidas, tais como leitura de mercado, tomada de decisão baseada em habilidades que se aprendem e se aprimoram com método, prática e reflexão, segundo Securato. 

O papel das escolas de empreendedorismo é o de oferecer ferramentas, repertório e experiências práticas que aumentam significativamente as chances de sucesso, na visão de Schocair, da Link. “Hoje já existe um consenso de que habilidades como gestão, estratégia, vendas, comunicação e análise de mercado podem ser ensinadas”, diz o reitor. 

Darlan Moraes, curador do Hub de Empreendedorismo e Inovação e professor mentor da Liga Empreendedora, ambos na ESPM-SP, acredita não se trata de ensinar, mas de desenvolver e estimular esse conhecimento. “Não dá para ensinar liderança de forma direta. É possível inspirar e apontar caminhos”, diz Moraes. 

As competências essenciais podem ser desenvolvidas a partir de abordagens que combinam teoria e prática, segundo Paula, do Ibmec, porém, ela ressalta que o perfil individual influencia a forma como cada pessoa utiliza essas competências. “O desenvolvimento de competências socioemocionais, como centralidade e visão, e habilidades específicas como comunicação assertiva, enriquecem o ferramental dos nossos alunos”, diz.

Saint Paul | FOTO: Divulgação

Networking e experiência de aprendizado 

A mais recente investida para oferecer formação para executivos, líderes empresariais e empreendedores vem da união do Grupo Lide com a ESPM. A iniciativa une a tradição acadêmica da ESPM à força de articulação do LIDE. À frente do projeto, João Doria Neto, CEO Global do Lide, defende que o diferencial não está apenas no conteúdo, mas na construção de um ecossistema que conecta executivos a tendências, mercados e outros tomadores de decisão. Em entrevista exclusiva à GoWhere Business, ele detalha como o programa foi estruturado, de que forma o networking se transforma em ativo concreto e por que antecipar tendências se tornou uma das competências mais valiosas da liderança contemporânea. 

Em um momento em que a formação executiva se multiplica, o que torna o ESPM LIDE Corporate Academy realmente relevante para quem já está no topo da tomada de decisão? 

João Doria Neto: A relevância da ESPM LIDE Corporate Academy está em uma proposta que responde a uma demanda específica de líderes que já ocupam posições estratégicas. Não se trata de formação inicial ou de atualização pontual, mas de um ambiente voltado à reflexão estratégica, à antecipação de tendências e à troca qualificada entre executivos que enfrentam desafios reais em suas organizações. A combinação da excelência acadêmica da ESPM com a rede global do LIDE cria um contexto único, no qual o aprendizado está diretamente conectado à prática e às transformações que estão moldando o ambiente de negócios. 

João Doria Neto | FOTO: Divulgação/ Evandro Macedo

No lançamento, o senhor falou que o mercado exige que líderes sejam capazes de antecipar tendências. Até que ponto essa habilidade pode ser ensinada, e como o programa transforma essa visão em vantagem competitiva concreta? 

João Doria Neto: A capacidade de antecipar tendências não é uma habilidade intuitiva, mas um processo desenvolvido a partir de repertório e exposição a diferentes contextos.O programa trabalha essa construção a partir de uma combinação entre conteúdo estruturado, análise de cenários e contato direto com diferentes realidades de mercado, incluindo experiências internacionais. O objetivo é ampliar a capacidade do executivo de interpretar sinais, conectar variáveis e transformar essas leituras em decisões estratégicas. 

A proposta rompe com cursos “de prateleira”. O que, na prática, diferencia essa experiência de aprendizado das ofertas tradicionais voltadas ao C-level? 

João Doria Neto: A principal diferença está no formato e na profundidade da experiência. Preferimos tratar como programas, e não cursos, porque o público já possui uma trajetória consolidada. A metodologia privilegia turmas menores, troca entre pares e a integração entre conhecimento acadêmico e experiência prática. Além do corpo docente da ESPM, há participação ativa de lideranças empresariais, o que traz uma perspectiva atual e aplicada aos desafios do dia a dia. 

O networking sempre foi um ativo do LIDE. Como essa rede, na prática, se traduz em valor real dentro da sala de aula, e também fora dela? 

João Doria Neto: A rede do LIDE tem um papel central na proposta da Academy. Ao unir a autoridade acadêmica da ESPM com a rede empresarial do LIDE – Grupo de Líderes Empresariais, que reúne mais de 4.000 líderes empresariais, mais de 28 unidades no Brasil e presença nos cinco continentes, criamos um ambiente em que o networking deixa de ser apenas relacional e passa a ser parte ativa da experiência de aprendizado. Dentro da sala de aula, isso se traduz em um espaço de troca entre executivos de diferentes setores, com vivências complementares, o que eleva o nível das discussões. Fora dela, essa conexão se amplia por meio do acesso a lideranças e instituições em diferentes mercados, inclusive em agendas internacionais. 

Em um cenário global cada vez mais pressionado por tecnologia, IA e novas dinâmicas de poder, que tipo de liderança o Brasil precisa formar agora para não ficar para trás? 

João Doria Neto: O Brasil precisa formar líderes com visão global, capacidade de adaptação e leitura estratégica de cenários complexos. A inteligência artificial é central nesse processo. O desafio não está apenas na adoção da tecnologia, mas em incorporá- la ao dia a dia das companhias com responsabilidade, garantindo a segurança de dados e, ao mesmo tempo, elevando a produtividade. Essa abordagem está presente no programa Gestão de Inovação e Liderança em Tempos de IA, que desenvolve líderes preparados para contextos complexos, combinando inovação, competências humanas e uso estratégico da tecnologia. 

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POR Clayton Freitas
FOTOS: Divulgação e Divulgação/ Evandro Macedo (João Doria Neto)

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